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Chuva de embromação

Chuva de embromação

No dicionário informal a definição para embromação diz: embuste, ardil, cilada, conto, embrulho, engano, farsa, hipocrisia, impostura, invencionice, manha, mentira, tapeação, velhacaria, balela, falsidade... É isso. Essa é a palavra que melhor resume o que sinto em relação às chuvas e à reação da sociedade. Todo ano é a mesma coisa. Quando a inundação não acontece no mesmo lugar, se dá em alguma região ou obra que não teve a definida manutenção. E vêm os discursos, as promessas, nós, os jornalistas, procurando o maior drama, os nossos veículos de comunicação faturando alto com o ibope que o sofrimento do pobre dá e, o que é mais deprimente, na maioria das vezes, as vítimas felizes (ou, no mínimo, excitadas) porque estão sendo alvo de atenção. Repare como há sempre um histórico de omissão ou incompetência precedendo um desastre. Alguns exemplos atuais: em Ouro Preto um monte de terra desceu e matou e a gente fica então sabendo que mapeamento geológico entregue à prefeitura havia alertado para o risco no local; um prédio caiu no Caiçara e a gente toma conhecimento que os moradores foram oficialmente alertados pelo menos três vezes; o asfalto ameaça ruir junto ao viaduto São Francisco, no Anel Rodoviário da capital, e não nos lembramos quando foi que fizeram uma manutenção ali... Na verdade, o que sabemos é da ocupação indevida de áreas nobres por amigos de funcionários públicos influentes e as de risco pelos pobres. Então, por que insistir em que “as chuvas causam mortes em Minas”? Elas, as chuvas, sequer vieram de surpresa – todos nós sabemos que o período de chuvas começa em 14 de outubro e termina em 14 de abril. Nós não tomamos qualquer providência concreta, continuamos trocando calçamento por asfalto, admitindo ocupação de áreas impróprias, impedindo o caminho natural das águas, encaixotando os rios com base em suas vazões no período de normalidade, enfim, nós fazemos tudo errado... Na hora da tristeza, sofrem os mesmos brasileiros de sempre e os outros vão lá faturar: repórter quer ibope, político quer voto, às vezes o vizinho quer aproveitar e aparecer no noticiário... Quando penso nessas coisas lembro-me do grande jornalista Alcântara Xavier que dizia sempre: “Repórter tem de ter prazo de validade; senão, um dia ele mata alguém ou morre de raiva!”.