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“Chico do frango” odeia garnizé

“Chico do frango” odeia garnizé

Tenho insistido que o Brasil precisa urgentemente de uma política capaz de difundir a cultura da paz. É o melhor caminho para combater tanta violência nas escolas, a banalização dos homicídios e a crueldade cada vez maior nos assaltos. Mas, não tenho dúvidas, acima de tudo, outro olhar para o irmão vai diminuir atropelamentos, colisões, mortandade de motoqueiros, enfim, as brigas de vizinho e as encrencas entre marido e mulher que tanto tomam tempo da polícia. Vejam o que está acontecendo em uma cidade do nosso circuito das águas, a bela Lambari: o gari Mauro Leopoldo recebeu uma notificação judicial para acabar imediatamente com seu galinheiro. Ele promete reagir, lembrando que foi o primeiro morador do bairro e, naqueles tempos difíceis, as galinhas foram a solução encontrada para combater as cobras. Apaixonou-se por elas. Acontece que um vizinho construiu um chalé para descansar e não está gostando do barulho que um dos galos e o garnizé de Mauro fazem durante a madrugada. É a velha e boa cantoria. O vizinho não parece ser um desses chatos que vieram para incomodar. Ele diz que escolheu cuidadosamente o lugar para ter paz e não consegue mais dormir, nem com protetores de ouvidos ou calmantes. A ordem judicial é baseada na Lei de Contravenções Penais, que trata da perturbação da ordem e, acreditem, no Código de Posturas da cidade, que proíbe a criação de galinhas em áreas urbanas. Não bastasse a raridade da peleja, ainda há um dado instigante: antigo dono de uma loja que comercializa galináceos, o reclamante, Francisco Álvaro Spardaro, é conhecido na cidade como “Chico do frango”. Não é aconselhável ao cronista, a centenas de quilômetros, sem conhecer os personagens, sem avaliar as condições do criatório e o barulho resultante da força pulmonar dos galos, dizer que é o fim do mundo. Mas, o senhor que veio da roça sabe que uma boa conversa entre o gari e o vendedor de frangos resolveria tudo sem maiores consequências. É isso que está faltando. Nós temos de olhar para os outros com ternura ou, pelo menos, sem ódio. A gente não tem paciência para esperar o desconhecido encostar o carro, se irrita com meia hora de festa na casa do vizinho e acha que é provocação qualquer manifestação de alegria que não seja da nossa turma. Se proibirem o galo de cantar, vou entender melhor o que o grande Chico Buarque cantou 42 anos atrás: “...Você vai se amargar, vendo o dia raiar, sem lhe pedir licença...”