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Caminhando pela Afonso Pena

O amigo Hamilton Gangana enviou-me texto no qual se lembra com ternura dos tempos em que a principal Avenida de Belo Horizonte era palco de...

03/10/2016 às 02:53
Foto: Creative Commons
Caminhando pela Afonso Pena

O amigo Hamilton Gangana enviou-me texto no qual se lembra com ternura dos tempos em que a principal Avenida de Belo Horizonte era palco de muitas emoções. Digno de chegar ao maior número de pessoas possíveis, afinal, recordar é viver:

“Alegria do vaqueiro é ver o tombo do boi. O prazer de quem é velho é contar o que já foi”. (Jackson do Pandeiro)

Foi no início dos anos 70 que a nossa principal avenida, a Afonso Pena, começou a perder aquele charme de via mais importante do centro da cidade, que tinha vida intensa, um comércio nobre, lojas atraentes, vitrines bem iluminadas, vários cinemas, cafés, empresas, bancos, consultórios, confeitarias e também gente bonita e elegante transitando em todos os sentidos. A Afonso Pena simplesmente acabou, ficou horrorosa, triste e árida, poluída e mal cuidada. Hoje é simplesmente um corredor de veículos e coletivos apressados, tentando alcançar o sinal da onda verde.

Lembro-me que, naqueles bons tempos, estacionei o meu fusquinha 66, azul-calcinha, em frente à Secretaria de Agricultura, na praça Rio Branco, numa tarde de brisa suave e saí caminhando.

O rádio tocava uma música nova, o “Samba de uma nota só” de Jobim, com a voz e o violão de João Gilberto. Olhei ao redor e vi a torre da PRI3 Rádio Inconfidência, na Feira de Amostras, a matriz da Drogaria Araujo, a A Brochado & Cia, o Armazém do Grilo e aquela placa luminosa no alto do prédio da Minas Brasil Seguros. Continuei andando por debaixo de árvores generosas, entre enormes carros de aluguel, ouvindo a algazarra dos pardais, os camelôs e as vozes repetitivas de cambistas, falando ao mesmo tempo: olha o “Macaco”, olha a “Cobra”! - ; “Vaca, Galo e Porco”! Olha o “Veado”! Passa um boneco tipo “perna de pau”, com megafone, a serviço de uma promoção popular. Uma cigana bonita faz sinal, pede para ler a minha mão e “tirar a sorte”. E vão surgindo na minha cabeça alguns apelos e frases conhecidas de reclames divulgados pelo rádio: - “ De dia e de noite, siga direto, Drogaria Araujo”; “Quem bate?- É o friiiio. Não adianta bater, nas Casas Pernambucanas”... “Guanabara. Com um cartão de crédito, veste-se toda a família”; “Sortes grandes? Campeão da Avenida”; “Se bem não escreveu, não foi Abreu quem vendeu”; “Casa do Rádio – a loja que mais vende televisão”; ”Sobrado dos Calçados – mais economia em cada degrau”; “Banco Financial da Produção - paga mais juros e oferece mais garantias”... Tudo acontecia na Afonso Pena, que “era o principal lugar pra gente ir”, como diz o verso da música “Bela Belô”, de Gervasio Horta.

Segui andando, passei pela Mesbla, Pernambucanas, Calçados Leila, Casa Gaúcha, Sobrado dos Calçados, Cine Arte Avenida, O Rei do Sanduiche, Associação Comercial; Casa do Rádio, Sapataria Americana na esquina com Tupinambás, onde faziam ponto os garçons e os músicos, não por acaso bem perto do Café Palhares; a Hudersfield, A Nacional Magazin, Adriatica, o edifício Mariana; Casa Falci, A Balalaica, Casa Titan, Lanches Odeon, Polo Norte e Bar Simões, Casa Mexicana, Banco e Hotel Financial, o famoso Cinedia, bar preferido pelos desportistas; Copacabana Tecidos, Casa Abreu, As Três Américas, Praça Sete Calçados, Banco da Lavoura, Café Pérola, Cine Brasil, Brasil Palace Hotel, Banco Mineiro da Produção, que virou Bemge , Campeão da Avenida, Banco Hipotecário e Agrícola, a Livraria e Papelaria Rex. Uma multidão de pedestres, indo e vindo, os dois abrigos de passageiros sempre movimentados, os bondes circulando em volta do pirulito da Praça Sete, palco de grandes manifestações populares, comícios e muitos carnavais. Um homem carrancudo, sobe numa escadinha e escreve, com giz, as manchetes principais do jornal Estado de Minas, sobre o vidro de um quadro escuro, preso no poste. Muitas pessoas, atentas, acompanham o trabalho. Logo à frente, o Cine Glória – ao lado, uma pequena vitrine do alegre vendedor que anuncia “Rrrequeijão e doccccce de leiite”! Livraria Oscar Nicolai, Casa Guri, Café Nice, Bemoreira e Hamilton; as chamativas vitrines da Casa Guanabara, que tinha uma loja em cada andar; A Sibéria, Restaurante do Hotel Normandy, o Cine Acaiaca, Kopenhagen e a TV Itacolomi lá no alto do edifício, em frente à igreja São José. No antigo prédio da esquina com Espírito Santo, apelidado de Castelinho, a Ramenzoni, depois o pioneiro edifício Guimarães, a Scatamacchia, Calçados Clark, Joalheria Kiva, a sóbria Sloper – neste quarteirão, os jovens praticaram footing durante muitos anos - , Rochester, Café Galo, A Porcelana, Ótica Odair, A Principal e A Infantil. Logo adiante, loja Gomes, Copiadora Brasileira, a Cia. Força e Luz, Cia.Telefônica, Prefeitura e os Correios - do lado oposto e de frente para o Parque Municipal, onde está escondido entre as árvores o teatro Francisco Nunes.

Fiquei mirando as ainda conservadas e modernas torres gêmeas SulAmérica e SulAcap, com um discreto jardim à entrada, a agência do Banco Comércio e Indústria, e uma ampla vista para os arcos do viaduto Santa Tereza. Alcanço a esquina da tradicional rua da Bahia, do antigo Bar do Ponto, de pessoas elegantes e lojas de excelência. Edifício Arthur Haas, Sapataria Central, Balas Suiça, Giácomo , Charutaria Flor de Minas, Batidas do Pisca, Papelaria Oliveira & Costa; Livraria Itatiaia , Casa da Lente, os prestigiados bares Elite e Trianon - redutos de torcedores do América e de escritores, jornalistas, políticos e intelectuais. Uma área de muito bom nível. E olha quem eu encontro por ali. Os compositores Celso Garcia, Gervasio Horta e Rômulo Paes, os três comemorando: Garcia emplacou o samba “Foi pra Santa Tereza, que aquela beleza, o bonde pegou”... Gervasio e o compadre Rômulo - este como sempre de terno escuro, camisa branca e gravata preta, amendoins no bolso e um sorriso preso entre os dentes -, falam que “ficou uma beleza” a gravação da marchinha que promete estourar no próximo carnaval. E cantam – “Êêê Maria, tá na hora de ir pra rua da Bahia. As águas já rolaram, na rua da Bahia, mais do que em Três Marias, ô,ô,ô”... Tomamos algumas cervejas, consumimos dois filés à palito e duas porções de queijo parmesão, de pé, no balcão do Trianon. Foram três traçados e uma saideira, num encontro inesperado com os amigos. Fui embora alegre e com a conversa em dia, mas ficou uma incerteza: vou subir Bahia ou descer Floresta?

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