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Caixa de papelão

Ainda menino, compreendi a força das águas. Lá em Inácia de Carvalho, havia uma regra entre as cláusulas pétreas da minha mãe que estabelecia a...

Ainda menino, compreendi a força das águas. Lá em Inácia de Carvalho, havia uma regra entre as cláusulas pétreas da minha mãe que estabelecia a distância de, no mínimo, 200 metros do córrego sempre que chovesse. Naquele tempo, na simplicidade daquela gente, prevalecia o respeito absoluto à natureza e o princípio básico de que todo filete d’água se torna um grande rio dependendo da enchente que, por sua vez, será maior ou menor dependendo da chuva na cabeceira e não no lugar onde estávamos. Certa feita, Raimundo, irmão mais novo, com prováveis seis anos, desapareceu durante um temporal e houve pânico de horas, até que o encontramos dormindo, tranquila e inocentemente dentro de uma caixa de papelão atrás de uma porta que se fechara por ação do vento.

Neste fim de semana, lembrei-me da caixa de papelão como o melhor símbolo para o que quero dizer sobre a nossa vida na cidade grande. Estamos todos num rio, nadando contra a corrente, e, embora os responsáveis pelo leme insistirem em nos dizer que está tudo sob controle sabemos que há ondas gigantes vindo por aí e, pior, estamos não em naus seguras, mas, em caixas de papelão. O que acontece em Belo Horizonte não pode ser atribuído a forças da natureza ou eventos catastróficos que não dependem da ação humana. Como, num só fim de semana, uma mulher morrer na enxurrada em bairro tão tradicional como o Prado e, perto dali, no Carlos Prates, um prédio de quatro andares em construção vir abaixo? O mais chocante é a entrevista do prefeito. Ele pode até ser honesto quando diz que vamos precisar de mais 20 anos de obras para ter a cidade em condições seguras quando das chuvas. Mas, o que o prefeito diz nós todos sabemos, ou alguém tem dúvidas de que qualquer céu nublado é sinônimo de perigo? Aliás, a própria Prefeitura espalhou placas em ruas de topografia mais acentuada avisando que “em caso de chuva, esse local deve ser evitado”.

O que gostaríamos de saber, caro prefeito, senhores vereadores, é o que estamos fazendo, quanto estava previsto para 2015 e quanto foi gasto, porque obras prometidas para cinco anos atrás continuam na prancheta. O que realmente interessa é saber, desta administração, quais leis foram aprovadas nos últimos oito anos para alterar as formas de construção, diminuir a ocupação desordenada, retirar famílias de áreas de risco e fechar o certo contra construções irregulares. A verdade é que nos últimos 40 anos – período em que acompanhei de perto a administração – um prefeito foi fundamental para evitar as tragédias: ao se aproximar dos moradores das vilas, ao conversar com suas lideranças, ao enfrentar o assunto com a seriedade que ele exige, Patrus Ananias elaborou um Plano Global Específico e, depois, o Vila Viva, nos livrando daquelas mortes de toda chuva nas favelas. Desde então, as mortes são no asfalto, na cidade dita formal, e a única coisa que a gente ouve é o discurso de sempre, vazio, sem credibilidade, irritante... É papelão!