Ouça a rádio

Compartilhe

Belo Horizonte!

Belo Horizonte!

Ela já tem 114 anos, mas parece menina moça, cheia de ajustes por fazer, confusa entre o planejamento que a originou e a falta de rumo que a ronda. Sente que o progresso é inevitável, mas se pergunta por que avenidas e ruas são feitas e desmanchadas com tanta pressa pelos que podiam ter pensado um pouco mais antes de gastar o dinheiro que não temos. Ela sofre com os conflitos entre quem quer bar e prosa e quem precisa dormir, mas orgulha-se do título de capital dos bares. Ela se envergonha de alguns vereadores, nus, pegos com a boca na botija, melhor, a mão no dinheiro de quem quer mudar a lei, mas, gaba-se de sua galeria onde pontuam ex-prefeitos como JK. A aniversariante se assusta com shopping prá tudo quanto é lado, condomínios na horizontal e na vertical ameaçando a convivência entre os desiguais, mas - como poucas metrópoles- ainda guarda o seu precioso Mercado Central e muitas feiras, para ricos e pobres. Assiste, aflita, à polêmica entre os que brigam pela preservação das árvores e aqueles que pedem substituição das mais antigas, a fim de evitar acidentes... Mas, não abre mão do título de “cidade jardim”. Ela viu sufoco das principais torcidas, diante da falta de um palco para a prática do futebol em seu território e nossos principais times caindo pelas tabelas; mas, ignorando a incompetência de alguns dirigentes, a má fé e o enriquecimento de outros, se prepara para a Copa do Mundo, acreditando que vai fazer bonito. Ela não consegue oferecer transporte coletivo decente para seus filhos mais pobres, mas, vai atrás do BRT, pensa no VLT, admite a volta de transportes ferroviários nos moldes dos antigos subúrbios e topa qualquer discussão em nome da mobilidade urbana... Enquanto metrô de verdade não vem. O Anel Rodoviário é inacreditável, mas, se já domamos o Arrudas, se estamos prolongando a Pedro II, por que perder a esperança? Nosso território é escasso, sofre com a especulação imobiliária, mas a palavra sustentabilidade não nos parece tão estranha... A gente tem medo, a insegurança nos ronda, mas, convenhamos, nossa polícia faz o que pode. A gente podia ser mais feliz, mas, pergunta para nossos conterrâneos que estão lá fora se não morrem de saudades... Enfim, nossa cidade tem defeitos, às vezes é provinciana e a gente pode até falar mal dela... Mas, só nós... Longe daqui respeito é bom e a gente gosta. E, há 114 anos, faça sol faça chuva, para qualquer lado que a gente olha, não dá para negar: que Belo Horizonte!