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Aglomerado de equívocos

A pior crise no Brasil do século XXI não é política ou econômica. Nos falta disposição para a conversa, para a seriedade.

A pior crise no Brasil do século XXI não é política ou econômica. Nos falta disposição para a conversa, para a seriedade. Eu tenho mil exemplos e um deles o país inteiro viu, anteontem, quando o procurador-geral da República Rodrigo Janot ignorou solenemente o presidente da Câmara Eduardo Cunha durante solenidade de abertura dos trabalhos no Judiciário. Era de se esperar, pelo protocolo, pela boa educação, um aperto de mãos embora saibamos que ambos estão em vias absolutamente opostas na vida. Outro exemplo de nossa preguiça ao diálogo é a proliferação dos mosquitos que matam porque o prefeito de Belo Horizonte não conversa com o governador, a prefeita de Pedro Leopoldo não se reúne com o de São José da Lapa e a vida segue...

No entanto, quero mesmo falar é sobre os últimos acontecimentos no Aglomerado da Serra. Primeiro, é preciso lamentar o retrocesso, pois, essa história de poder paralelo foi uma ameaça 15 anos atrás, assim como cadeias cheias de presos e falta de gasolina para viaturas e os pactos de morte nos presídios, fantasmas que pareciam extintos. Agora, um rapaz de 18 anos resolve fazer uma guerra, ninguém reage, a imprensa cobra, a viatura da Polícia Militar é recebida a tiros, cria-se o medo generalizado e as nossas “autoridades” tomam a pior das decisões: a de indicar aos criminosos que eles estão no comando. Ou não é essa a mensagem que a Prefeitura mandou, admitindo fechamento de posto de saúde e redução nos horários de circulação dos coletivos?

É impressionante como não aparece alguém com coragem e autoridade o bastante para subir o morro, armar uma barraca e dizer: a vida segue normal nas cinco vilas da Serra e ponto final. O prefeito se omite, o secretário de Defesa Social silencia, o governador não entra e a nossa Câmara Municipal segue fazendo promessas de economia nas quais não acredito. À exceção do deputado sargento Rodrigues, que marcou uma reunião da Comissão de Segurança Pública da Assembleia para amanhã, no aglomerado, todos os representantes da cidade estão se acovardando. Onde já se viu deixar de atender a 60 mil pessoas com médico e ônibus porque há ameaças de meia dúzia de traficantes de média e baixa periculosidade?

Aliás, as “autoridades” deveriam estar por lá rotineiramente, com convivência o bastante para desestimular as chamadas guerras entre gangues. Diante da ausência, teriam de ter pelo menos a decência de rechaçar, com todo vigor, qualquer ameaça contra a paz da esmagadora maioria. A PM, que é sempre a primeira a “ocupar” o morro, deveria ser a última, já para resolver qualquer parada com o uso da força, esgotadas todas as possibilidades de negociação.

Poderia apontar mais uma centena de esquisitices, mas, fico por aqui, repetindo: o país não aguenta essa história de eleição de dois em dois anos porque os que governam só pensam nas urnas, não decidem, não agem, não resolvem, e o poder paralelo se assanha, passa a mandar e, não demora muito, vai dizer quando e como podemos sair de casa.