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A tragédia anunciada 11 anos atrás

A tragédia anunciada 11 anos atrás

Madrugada de 24 de novembro de 2001. O telefone tocou e o colega de redação sugeriu que eu desse um pulo à Avenida do Contorno, na região Centro-Oeste da cidade, porque havia informações de um grande incêndio, com vítimas fatais. Dez minutos depois estava lá e, de imediato, vi três corpos enfileirados na porta do “Canecão Mineiro”. Voluntários traziam mais dois, esfumaçados. Morreram sete, só porque a casa estava vazia naquela noite – uma semana antes, fizeram show lá com público quatro vezes maior. Agora, no domingo, quando recebi as primeiras informações sobre a tragédia de Santa Maria, as cenas de onze anos atrás voltaram à minha mente. Foi tudo, rigorosamente, tudo igual. As primeiras informações sobre a causa: fogos de artifício (ou sinalizador) usados no palco pela banda; o princípio de incêndio, correria; seguranças impedindo a saída das pessoas antes de terem certeza de pagamento das respectivas contas; uma porta só, a luta pela saída e a lei da física: não havia espaço para todos, então, muitos tiveram de aspirar ao gás tóxico e foram morrendo, em meio a um desespero alucinante. E vem o estardalhaço na TV, o rádio fala sem parar, os jornais preparam páginas e mais páginas, a presidenta volta do exterior, o país não fala de outra coisa. Por poucos dias. Vem um novo fato de repercussão, a gente esquece e a vida segue. Quem sabe quantas – e quais – pessoas estão presas, responsabilizadas por aquele incêndio? Eu sei que pelo menos uma das pessoas que lá estavam naquela noite já ganhou uma indenização de 300 mil reais que serão pagos pela Prefeitura, com o nosso dinheiro, com o dinheiro do nosso IPTU.  Nove anos depois - e perto de cinco milhões investidos - um grupo de empresários poderosos queria abrir outra casa, no mesmo local, sem o devido alvará. Anunciavam show com o meu xará mais famoso e vendiam ingresso pela internet. Avisei, no rádio, que iria tirar a roupa na Praça Sete e eles recuaram e só abriram a casa de acordo com a lei. Aquelas mortes do Canecão foram em vão. Depois, em 2004, na Argentina, 194 morreram nas mesmas circunstâncias e mudaram a lei... Lá! Tomara que as vítimas da “Kiss” sacudam as autoridades para uma atitude de proteção aos nossos jovens aqui. Que Deus os protejam!