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A reconstrução de Bento Rodrigues

Com a liberdade de quem admira os novos membros do Ministério Público e animado por entrevista extremamente cordial que tive com o doutor...

Com a liberdade de quem admira os novos membros do Ministério Público e animado por entrevista extremamente cordial que tive com o doutor Guilherme Meneghin, ouso sugerir ao promotor que inclua em um possível Termo de Ajustamento de Conduta a cláusula de que as comunidades atingidas pela lama da Samarco serão reconstruídas dentro de parâmetros que busquem a maior aproximação possível com a antiga realidade. Propostas como a do ministro Cassab, das Cidades, de se aproveitar projetos do “Minha Casa, Minha Vida” são inaceitáveis e refletem falta de consideração para o aspecto mais importante da vida humana – a identidade cultural.

Nos últimos dias, tenho visto e ouvido reportagens que retratam as perdas imateriais das vítimas da reserva do Fundão. Ao repórter Vinícius Araújo disse um senhor que a lama levou sua vaca preferida e que ela “ainda olhou para mim, como se pedisse socorro e foi desaparecendo aos poucos”; Edilene Lopes encontrou um senhor que queixa a ausência da maritaca querida e do quintal que tanto apreciava, além de não se conformar com a destruição do pomar; já Mônica Miranda falou com uma senhora que todo dia sente “uma saudade danada de molhar minha horta”. Esses sentimentos, essas saudades não têm preço. São a essência das pessoas, aquela identidade cultural sobre a qual já falei neste espaço.

Fosse eu assessor da Samarco e teria tomado três atitudes logo depois da tragédia: escalar um profissional dos graduados para ficar de plantão, todos os dias, conversando com vítimas e coordenando o cadastramento, pediria ao presidente da empresa para pedir desculpas no dia seguinte ao acidente e escalaria todos os colaboradores para ajudarem no socorro e atenção às vítimas, no lugar de férias remuneradas como aconteceu. Com a colocação das pessoas em hotéis, escolheria o mais adequado diretor para morar com elas, sentir suas dores – aperto, falta de terreiro, etc., - e servir de intermediário, com capacidade para solucionar.

Agora, que a tragédia está completando um mês, já teria terreno nas imediações, escolhido por critérios técnicos, mas, aprovado pela maioria e, simultaneamente, teria contratado um escritório de arquitetura para, mediante entrevistas com cada um dos moradores iniciar projeto de reconstrução o mais parecido possível com o povoado de antes. Se precisasse de ajuda, falaria com a Cemig, que transferiu Nova Ponte de lugar antes de inundar a antiga cidade do Triângulo sem causar estresse. Esses irmãos nossos merecem casa nova, com água, luz e esgoto, mas, também, que seja a mais parecida possível com a antiga, que o quintal seja do mesmo tamanho, que os vizinhos sejam os mesmos, que pelo menos se tente devolver um pouco da vida que a irresponsabilidade de poderosos roubou daquela gente.