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A ponte da sacanagem

A ponte da sacanagem

A palavra sacanagem tem muitas definições, de acordo com os dicionários mais tradicionais e outros, informais. Em uma das consultas, encontrei: “1 Ação, dito ou procedimento de sacana. 2 Bandalheira, imoralidade, safadeza. 3 Patifaria, tratantada. 4 Brincadeira de mau gosto; troça”.

Sei que não é termo dos mais usados em textos dedicados às famílias mineiras, mas, acreditem-me, fiquei pensando por quarenta minutos e não encontrei outra definição para os fatos que envolvem a ponte sobre o Rio das Velhas. Construída há mais de seis décadas, para veículos que não carregavam mais que 10 toneladas e eram em número reduzido, ela foi vítima dos males que o tempo impõe a pessoas, coisas e obras.

Há tempos especialistas diziam que ela não iria suportar – como outras obras de arte não vão aguentar – pois, na verdade, a própria rodovia que liga a capital a todo o Leste de Minas e mais Estados importantes como Espirito Santo, Rio e Bahia já não comporta o volume, o tamanho (já tem caminhão que chamam de treminhão) e o peso dos veículos (até 70 toneladas, sendo que já foi flagrada carga de 108 mil quilos).

Não adiantaram os avisos. Um dia a ponte cedeu. E então, passamos a assistir a um festival de besteiras, desinformações, falta de transparência e despreocupação absoluta com o que é mais importante em uma estrada – o usuário.  Depois do susto, em abril, às vésperas de um feriado prolongado, descobrimos que não havia um plano de emergência. E vieram recados desencontrados, proibições, desvios, espera de ponte provisória, cidades destruídas por carretas pesadas, discursos, uma confusão completa.

Sempre, no olho do furacão, uma vítima preferencial: os motoristas, especialmente os caminhoneiros. A única coisa que decidiram com rapidez foi o consórcio para a construção da nova ponte e eu divulguei o nome e o valor da obra (40 milhões) com uma semana de antecedência. No mais, os prefeitos de Santa Luzia e Sabará mostram-se fracos, deputados federais e estaduais usam helicópteros e aviões, o governador diz que o problema é de Brasília e ninguém resolve...

Agora, quando parecia não faltar mais nada, proíbem de novo os veículos mais pesados de passar na ponte provisória, não porque podem derrubá-la, mas, porque, segundo as autoridades, eles reduzem o fluxo de veículos, provocam congestionamentos e os bandidos assaltam os usuários. É sacanagem.