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A pior brincadeira do ano

ós, brasileiros, adoramos dizer aos quatro cantos do mundo que somos uma sociedade acolhedora, não temos racismo, nem preconceitos, enfim, somos a própria síntese da base de nossa formação como povo...

Nós, brasileiros, adoramos dizer aos quatro cantos do mundo que somos uma sociedade acolhedora, não temos racismo, nem preconceitos, enfim, somos a própria síntese da base de nossa formação como povo: os negros africanos, os brancos europeus e os indígenas. Sabemos que é uma grande mentira porque volta e meia escutamos piadinhas de péssimo gosto sobre os índios (principalmente falando sobre preguiça) e os negros – se um deles não for pagodeiro ou jogador de sucesso e cismar de namorar na nossa família vai dar uma discussão interminável.

Uma prova concreta de como somos hipócritas foi publicada no Diário Oficial do Estado do último sábado, o Dia da Independência: está lá, na página da Secretaria de Educação, a lotação de três professores no município de “Ribeirão das Trevas”. Numa primeira nota, a secretaria pediu desculpas. Depois, percebendo a repercussão do equívoco, elaborou outro comunicado, mais decente e de acordo com a gravidade do assunto, prometendo investigar, descobrir e responsabilizar os servidores pela molecagem, além de anunciar medidas para maior controle do que é enviado à Imprensa Oficial. É o mínimo que se espera.

A jovem prefeita de Ribeirão das Neves estava emocionada ao falar sobre o assunto durante todo o dia de ontem. Afinal, seu município é o de número 81 entre os de maior população no Brasil, tem uma arrecadação prevista de 140 milhões de reais para o ano e figura, na lista das piores rendas per capitas do país como o antepenúltimo, ou seja, nessa nação de tantas desigualdades e misérias situação pior que a de Neves só a de dois municípios. Historicamente, a única coisa que o Estado mandou para lá foram sentenciados. E o pior é que essa brincadeira inacreditável de nominar a cidade como “Ribeirão das Trevas” circula há muito nos bastidores por conta da escassez de equipamentos públicos, ruas esburacadas, saúde precária, transporte coletivo indecente, enfim, um sofrimento sem igual na região metropolitana de Belo Horizonte.

Neves é o pior retrato de um Brasil com 55 por cento de sua população vivendo em 300 cidades, que são 5 por cento dos 5,5 municípios. De São Paulo, com quase 12 milhões, a Araxá, que está chegando a 100 mil, são aglomerações urbanizadas na marra e sem planejamento, resultando em sofrimento e humilhação para sua gente. Neves merece um pedido de desculpas do tamanho de suas dificuldades.