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A era da indiferença

A era da indiferença

Duas notícias dos últimos dias exigem reflexão: o grande número de pessoas sepultadas sem identificação e a morte de um trabalhador em prédio da zona Sul de Belo Horizonte. Primeiro, “o adeus dos anônimos”, título da ótima matéria de Daniela Garcia na edição de anteontem do Hoje em Dia, na qual ela nos conta que 279 irmãos nossos foram enterrados em cova rasa sem qualquer vestígio além de um número. Dá quase um por dia. Só na capital foram 144. E é preciso considerar que 1276 corpos receberam uma primeira caracterização de “não identificados” nas geladeiras do nosso Instituto Médico Legal. São as mesmas pessoas “invisíveis” quando vivas que depois depositamos num buraco sem nos importar: os moradores de rua, os viciados, os chamados maloqueiros, gente que perdeu o rumo, o prumo, a referência, o contato com os seus... Bando de Zé ninguém... E nós, os vivos, nem ligamos! Antigamente, pelo menos a assistente social do IML mandava para as emissoras de rádio a relação dos “NI” para que, mediante apelo, aparecessem alguns familiares ou amigos; era, a chance de um sepultamento digno. Impressionante como quanto mais o tempo passa, mais pressa nós temos e menos nos importamos com os outros. A propósito, vamos ao segundo assunto de hoje: um técnico em elevadores saiu de sua casa no último sábado, pela manhã, para trabalhar. No domingo à tarde a família descobriu que ele estava preso entre o elevador e uma parede, no sexto andar de um prédio, no Bairro Sion, desde o começo da tarde de sábado. É isso mesmo... Ele foi consertar o elevador, morreu prensado e ninguém no prédio viu... Ainda que a maleta com alguns de seus objetos de trabalho ficasse o tempo todo no hall de entrada do prédio. E ainda que o carro dele permanecesse por mais de 24 horas em frente ao prédio. Pior, a família diz que teve a maior dificuldade de obter informações porque a empresa simplesmente não colaborou; na verdade, não sabia ao certo onde estava seu funcionário. Isto nos tempos de GPS, Iphone, Ipad, notebook, celular e essa parafernália toda que usamos quando é de nosso interesse. É incrível! Estamos sempre com pressa, precisamos priorizar nossas relações, decidir a quem retornar a ligação e, no final, só nos lembramos dos que nos são muito caros, ou por afeto ou por interesse. Quanto aos outros... Bem, os outros... São os outros!