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O resultado é a linha de corte do futebol brasileiro?

O resultado é a linha de corte do futebol brasileiro?

Dar sequência a um trabalho técnico, a uma ideia de jogo nos grandes clubes brasileiros é algo que os dirigentes pregam e perseguem, pelo menos nos discursos, ano após ano e que a grande mídia cobra incessantemente. Mas será que é possível implementar tal cultura de futebol, recorrente entre os gigantes europeus, num país como o Brasil? Esporadicamente entendo que sim e o Grêmio de Renato Portaluppi é um bom exemplo, graças principalmente aos títulos conquistados, mas hoje vejo como uma utopia pensarmos como uma mudança de cenário definitiva e entendo que os principais motivos são culturais, técnicos e financeiros.

Nossa cultura valoriza sempre o resultado, independentemente do desempenho. Um time pode estar apresentando um bom futebol, com uma ideia de jogo clara, mas se ao final da temporada a expectativa (muitas vezes exagerada e prematura) por título não for confirmada, muitos dirão que o trabalho fracassou, aparecerão vários defeitos e outros tantos culpados, especialmente o treinador. 

Em nosso país, o resultado quase sempre é esperado e exigido na primeira temporada, quando esta deveria servir para a montagem de elenco, da estrutura e modelo de jogo, o que raramente acontece. 

O exemplo do casamento entre Grêmio e Renato, citado no primeiro parágrafo, só dura por conta dos bons resultados alcançados e por isso é um oásis no deserto de trabalhos técnicos interrompidos ao qual se transformou o nosso futebol.

Outro fator que colabora muito para que no Brasil não haja uma sequência de trabalho nos clubes, e aí eu não me refiro apenas ao tempo, mas ao modelo de jogo, é que não temos um leque de opções (ideias) entre os nossos técnicos. 

Por aqui muitos pensam e encaram o futebol de maneira parecida. Até temos ótimos profissionais e com excelentes ideias de jogo, mas que na maioria da vezes abrem mão de suas convicções para manterem seus empregos. O treinador brasileiro sabe mais do que qualquer outro que em nosso país é mais inteligente se fechar quando faz 1 a 0 do que seguir atacando e buscar o segundo gol. Garantir uma vitória, ou um empate, ainda que você abra mão das suas crenças, é estar mais próximo do resultado e consequentemente do “sucesso” e da continuidade do trabalho/emprego. O (bom) resultado é nossa linha de corte!

O fato de pensar e trabalhar para segurar o próprio emprego, acaba jogando quase todos os treinadores na mesma “vala” e o que vemos é uma mesmice dentro de campo, não importa o jogo ou a camisa. Uma verdadeira pobreza técnica, tática e partidas cada vez mais chatas, como a final da Libertadores (2020) entre Palmeiras e Santos, quando Abel (Português) e Cuca mudaram a maneira de jogar de suas equipes em função do medo de perder.

Por fim chegamos a parte financeira, que para mim é uma das grandes vilãs quando o assunto é interrupção de trabalho técnico nos clubes e talvez seja a mais doída, pois acaba com bons e raros projetos de continuidade de alguns clubes que tentam caminhar na contramão da nossa (falta de) cultura. 

Exemplos recentes ilustram muito bem esta questão. O Flamengo teve seu “trabalho perfeito”, que englobava resultado, desempenho e revelação de jovens interrompido pelos euros oferecidos ao português Jorge Jesus. O clube não tinha dúvidas em relação à sequência, mas o poder financeiro da Europa interrompeu o sonho rubro-negro. 

No Internacional aconteceu algo parecido, ainda que o bom trabalho de Eduardo Coudet estivesse no início e não pudesse ser apontado como um acerto. O modesto Celta de Vigo seduziu o argentino, que deixou o Colorado para seguir seu trabalho em La Liga, na Espanha, mesmo em um clube que certamente não irá brigar por títulos. 

Jorge Sampaoli foi outro que abandonou o projeto audacioso do Atlético, contra a vontade do clube, antes mesmo de iniciar a sua segunda temporada, já com uma ideia de jogo implementada e com reforços de peso contratados para suprirem as lacunas detectadas ao longo de 2020. 

Tinha tudo para transformar o bom desempenho da maioria dos jogos da última temporada em resultados nesta que inicia, com as disputas das copas Libertadores e do Brasil pela frente e de mais um Brasileirão, desta vez com uma equipe mais encorpada e experiente. No entanto, o mercado europeu e seu poderio financeiro apareceram mais uma vez e o Galo perdeu seu comandante para a França. Forçado a procurar um substituto, o clube optou por Cuca, bom treinador e com história no clube, mas com uma maneira de pensar futebol completamente diferente do antecessor. 

O Atlético precisou recomeçar o projeto dentro das quatro linhas, assim como Flamengo e Inter, que também tentaram fazer diferente, mas a avassaladora desvalorização da nossa moeda em relação ao euro pesaram muito nas escolhas dos ótimos JJ, Coudet e Sampaoli.

Dito isto, comparar as constantes trocas de treinadores, o chamado resultadismo, a falta de continuidade nos trabalhos técnicos dos clubes no Brasil com a realidade dos gigantes do velho continente é desigual e sem fundamento. Querer que Atlético, Cruzeiro, Flamengo, Corinthians, Grêmio, Inter, entre outros, façam da mesma maneira é utopia, é vender uma falsa ilusão ao torcedor. Lá eles escolhem o treinador pela ideia e em qualquer país do mundo. Aqui escolhemos por disponibilidade, resultados recentes ou simplesmente pela sobra (ou falta de opções) de mercado.

No Brasil, fazer futebol da maneira ideal é financeiramente, culturalmente e tecnicamente impossível. Treinadores têm medo de perderem seus empregos, nossa moeda é uma piada em relação ao euro e ao dólar e dirigentes, torcedores e nós, formadores de opinião, não estamos preparados e não fomos acostumados a aceitar que no futebol o resultado é consequência e não causa.

Foto: Montagem Itatiaia