Edilene Lopes

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Por que os negros não estão nos espaços de poder e de tomada de decisão? 

20/11/2020 às 03:24

Hoje, o Dia da Consciência Negra, traz uma oportunidade perfeita para debatermos a ausência de negros em determinados espaços da sociedade. Nós negros, raramente, estamos nos espaços de poder e de tomada de decisão: ou não estamos presentes ou somos minoria, por exemplo, nas casas legislativas, nos secretariados, nos comandos de governos, nas direções de empresas e em lugares afins. 

Mas por que, nós negros, não estamos nesses lugares? Será que alguém argumentaria que somos menos capazes? Sim, argumentariam. Os racistas fariam isso.

Não estamos nesses espaços porque, de forma geral, as oportunidades para a população negra e para a população pobre, que é majoritariamente preta e parda, são menores. Menos acesso à educação de qualidade, consequentemente menos acesso à formação profissional e menos acesso aos melhores postos de emprego.

Mas será que alguém diria que não temos acesso às melhores oportunidades porque não nos esforçamos o suficiente? Sim. Os racistas diriam.

Basta olharmos para as estatísticas daqueles que disputam, por exemplo, as vagas nos cursos mais concorridos das universidades, de chefia nas empresas e de concursos de maior remuneração para perceber que pouco negros chegam a esses lugares de disputa.

E não chegam porque a maioria passa a maior parte do tempo tentando sobreviver, lutando contra a miséria e contra a fome. Estudo, lazer, tempo de dedicação para a formação e para a política, por exemplo, para maior parte dos brasileiros é luxo. 

Mas por que é assim? 

Vamos pegar o caso do Brasil. Desde o fim da escravidão, o negro foi preterido na sociedade brasileira. E quando a lei determinou que ele não poderia mais trabalhar sem remuneração aquele que o escravizava achou um desaforo ter que pagar salário a um negro e preferiu contratar mão de obra de imigrantes estrangeiros brancos.

Mas por que isso aconteceu?

Aconteceu porque racistas inventaram a escravidão e sempre trataram os negros de forma desumana. 

Com o “fim da escravidão”, os negros ocuparam as margens das cidades, formaram as comunidades que chamamos de favela, onde moram as pessoas que até hoje sustentam o Brasil. Agora, já remunerados, os negros, de forma geral, segundo apontam diversas pesquisas, tem os salários menores, jornadas de trabalho extenuantes, tem poucas condições de pagar pela educação privada e pouco acesso à educação pública de qualidade. 

Mas por que não há investimento em educação pública de qualidade desde a educação básica até o ensino superior para todos?

É uma resposta difícil. Mas há de se pensar que grande parte da classe política no Brasil, não todos porque há exceções e são muitas, é formada por pessoas ligadas a grandes grupos econômicos que pagam pouco e lucram muito. Claro que não são todos. Há muita gente na política e há grandes empresários interessados e trabalhando por um mundo melhor e mais justo. Mas é um raciocínio que não podemos deixar de fazer: quanto mais gente na pobreza, mais gente aceitando qualquer condição de trabalho. 

A manutenção da pobreza e do racismo estrutural andam juntos no Brasil e precisam ser combatidos. 

O racismo vive, mas a luta contra ele tamb[em. Eis aqui uma combatente. Se nós temos famílias como as nossas e empresas como a nossa que combatem o racismo, temos sorte. Nem sempre é assim. Muitos enxergam a luta como o preconceito como algo desnecessário, porque querem mantê-lo. Empresários defendem redução de impostos, desburocratização e livre concorrência, o que é legítimo. Religiosos defendem com veemência seus pontos de vista, o que é um direito. As categorias profissionais defendem suas reivindicações por melhorias, o que também tem legitimidade. Mas quando os negros falam em combate ao racismo tem sempre alguém falando que é mimimi. Por traz dessa fala, desse desdém, meu amigo, quase sempre tem um racista. Ë papel de cada um de nós combater o racismo dentro e fora de nós mesmos. É muita luta, apenas para sermos tratados com igualdade e respeito. É o básico, não precisaria nem ser reivindicado. 

E a representatividade e a ocupação dos espaços importa! Certamente, tem uma menina negra me escutando hoje aqui na rádio e tendo a esperança de que esse lugar, em um grande veículo de comunicação também pode ser ocupado por ela.

Hoje, jornalistas negros mineiros, como Aline Aguiar, da Globo, Márcia Mária, Humberto Martins e Thiago Madureira, do Estado de Minas, e outros colegas da imprensa fizeram matérias e falaram sobre o tema. Mas se não tivessem negros nas redações, esse tema estaria sendo abordado hoje? É uma questão sobre representatividade. 

Hoje nós temos em Minas um grupo de jornalistas negros, muitos são pesquisadores, e esse grupo debate representatividade. A página no Instagram, pra quem quiser seguir, chama Lena Santos, uma homenagem à primeira negra a apresentar um telejornal em Minas e uma das primeiras do Brasil. Ainda hoje, nós somos minoria nesta posição, apesar de nós, mulheres negras, sermos 28% da população brasileira, esse percentual não ainda se reflete nos lugares de visibilidade e tomada de decisão. 

Mas vamos juntos e com alegria por um mundo melhor e mais justos. Todas as vidas importam. Vidas negras importam. E a cantora Elza Soares está aí para nos lembrar que apesar de a realidade ser dura, a resistência é uma marca do povo negro no Brasil e no mundo. 

As definições de palavras do dia a dia da política que citamos aqui você encontra no do ABC da Política, para consulta e compartilhamento no Instagram @reporteredilenelopes.
 

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