Edilene Lopes

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O ‘Ensaio sobre a cegueira’ virou realidade

02/04/2021 às 04:45

Sempre achei escritores de ficção fascinantes. São mentes férteis, que dialogam e rompem com a realidade de uma forma tão impressionante que, ao mesmo tempo que parece absurdo, às vezes, parece que estão prevendo o futuro ou vendo além. 

A primeira vez que li o clássico “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, lembro que não conseguia largar o livro e que aquele clima tomou conta dos meus dias. O que senti quando li aquela obra intensa é exatamente o que sinto agora. Para quem não leu, um spoiler: a obra é sobre uma epidemia de cegueira que se espalha por uma cidade, provocando o caos e obrigando as pessoas a reverem totalmente o modo como viviam antes.

Ao longo do último ano e, especialmente no último mês, não passo um dia sem receber a notícia de que uma pessoa querida está contaminada, internada ou morreu. Outro dia, abri o feed de notícias de uma das redes sociais e quatro dos cinco primeiros posts que vi eram de despedida: de pessoas conhecidas lamentando a morte de um parente ou amigo pela covid-19.

Ficção virando realidade

O que estamos vivendo agora não se compara a nada do que vimos nas últimas décadas. Vivemos o H1N1 neste século. Algum de vocês lembra de tantas perdas? Aqueles filmes em que as pessoas se transformam em zumbis ao olharem nos olhos das outras ou contraem um vírus que provoca cegueira, como escreve Saramago, deixaram de ser mera ficção e, cada vez mais, estão perto da realidade.

Não podemos nos tocar, o ideal é que fiquemos a mais de dois metros de distância do outro, não convém tirar a máscara, devemos sair apenas para o essencial... Passamos a ter medo do outro e a não poder encostar em nada sem higienizar. E quem ousa a fazer o contrário pode ser punido com a própria morte.

Antes, podíamos escolher se íamos ou não a um evento. Hoje, somos privados de qualquer reunião presencial e isso é para o nosso próprio bem. Antes, perdíamos o cartão de vacinas, as datas de vacinação e a preocupação vinha mesmo na hora de uma ou outra viagem, que exigia vacinação em dia. Hoje, a vacina se tornou a coisa mais importante das vidas de cada um de nós.

Uma chance

Que virada de jogo. Que tristeza. Que loucura. Ao mesmo tempo, no último século, é possível que essa seja a maior chance coletiva que estejamos tendo de rever nossas prioridades e nosso modo de vida. O que exigimos do outro, o que exigimos de nós. Tanta coisa que era tida como obrigatória e necessária e que custava tanto sacrifício, agora virou algo opcional, algo que pode ser feito remotamente, algo que pode ficar para depois.

O quanto podíamos ter sido melhores e mais maleáveis, mas que só enxergamos depois que fomos obrigados a rever? O mundo está mostrando a cada um de nós, e também aos outros, nossa pior e nossa melhor face.

Medo da morte

Achava que tinha medo da morte, mas descobri mesmo é que tenho medo das perdas. Perder as pessoas que amo, vê-las sofrendo, me amedronta muito mais do que pensar que posso ser a vítima. E quando me cuido, é para cuidar deles e para cuidar de todos nós. Se cuidem! Eu não queria dizer isso, mas só uma visão clara da realidade vai nos salvar: pode piorar!

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