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Entenda o conflito entre vereadores e o secretário de Governo de Kalil

Não é de hoje que vereadores de Belo Horizonte reclamam da relação com o secretário de Governo de Alexandre Kalil (PSD), o ex-deputado estadual Adalclever Lopes (MDB), que coordenou a campanha de reeleição do prefeito. Aliás, essa briga com alguns partidos, como o PP, que até saiu da base, começou nas eleições, quando, na composição da coligação, alguns se sentiram desprestigiados.

Segundo parlamentares, Adalclever tem o apelido nos bastidores de “Resolve tudo”, porque, de acordo com alguns vereadores, na hora da conversa, ele diz que resolve, mas, no final das contas, não apresenta o resultado. Inclusive, quando Alberto Lage, o ex-chefe de gabinete que tem feito denúncias de suposto caixa 2, foi secretário-adjunto de Adalclever, os dois se estranharam.

Foi nessa situação que Alberto deixou de ser secretário-adjunto e, por intermédio da Adriana Branco, secretária de Assuntos Institucionais, acabou virando chefe de gabinete e se desentendeu novamente porque Kalil não teria ouvido os alertas dele sobre Adalclever.

Há alguns dias, como medida de pressão contra o prefeito, a Câmara decidiu votar os projetos mais relevantes para a cidade. Depois disso paralisaria a pauta e daria um gelo no prefeito, para ver se ele tomava providências para melhorar a relação com o legislativo.

Nesse intervalo, na terça-feira (28), o secretário de Governo, Adalclever Lopes, apresentou uma queixa-crime contra o vereador Gabriel Azevedo (sem partido), que é o presidente da CPI da BHTrans. 

E quais são os detalhes dessas mensagens?

Na denúncia, Adalclever afirma que foi ameaçado por Gabriel. Para sustentar a queixa-crime, o secretário de Governo de Kalil usou mensagens enviadas por Gabriel para ele e também mensagens de uma conversa de Gabriel com o chefe de Imprensa de Kalil, Vitor Colares. 

Na mensagem de Gabriel para Adalclever, o vereador cobrava do secretário de Governo o motivo de ele ter suspendido o funcionamento de um comitê da prefeitura criado para discutir as tarifas de ônibus e a relação com os empresários do setor. Na mensagem, ele afirmava que não ia aceitar essa suspensão, porque não houve conversa com a Câmara. E caso a prefeitura insistisse, a relação do Executivo com o Legislativo ficaria ainda pior e ele tomaria as providencias, inclusive, contra o secretário. 

Parlamentares entenderam que havia uma pressão da prefeitura para que a CPI terminasse logo, já que decidiu, na semana passada, que até o fim dos trabalhos da CPI o comitê permanece suspenso.  

CPI do Nepotismo

Já nas mensagens para o chefe de Imprensa de Kalil, Vitor Colares, Gabriel Azevedo - que é amigo de Vitor – tinha dito que o prefeito não era burro suficiente para tomar essa decisão sobre a suspensão do comitê sozinho e que ele ia pagar caro por isso.  Vitor mostrou as mensagens de Gabriel para Adalclever. As mensagens foram parar na queixa-crime apresentada contra Gabriel e, 48 horas depois – veio o castigo e Colares virou alvo de um pedido de CPI na Câmara – a CPI do Nepotismo – conforme adiantou a coluna. 

No pedido, consta que a esposa do chefe de imprensa do prefeito, que também é funcionária da PBH, foi promovida. No entanto, Colares justificou que quando a conheceu, ela já trabalhava na prefeitura, que ela não é subordinada a ele e que a promoção dela foi dada junto com a de outro funcionário do setor. 

Segundo os atuais opositores de Kalil, além do caso que deu origem ao pedido de CPI, outras 112 situações sob suspeição de nepotismo chegaram ao conhecimento da Câmara e algumas envolvem trocas de mensagens entre membros do alto escalão e amantes.

Denúncia de caixa 2

Não bastasse a CPI, o ex-chefe de gabinete de Kalil, que pediu demissão no mês retrasado, veio a público e denunciou um suposto esquema de caixa dois, financiado por empresas de ônibus, para a campanha do secretário de Governo, Adalclever Lopes, como deputado, para as eleições de 2022.

A informação de bastidores entre os adversários de Kalil é que o secretário de Governo teria tentado envolver Lage num esquema em que ele e Vitor Colares também recebessem dinheiro de caixa 2 de campanha. Por esse motivo, Lage teria pedido para sair da prefeitura. E agora resolveu botar a boca no trombone.

Vetos

Depois do pedido de CPI na quinta, foi protocolado nessa sexta-feira (1º) um projeto de resolução, com assinatura de 14 vereadores, que prevê a derrubada de todos os decretos relacionados à pandemia publicados por Kalil. Se isso acontecer, na cabeça dos adversários, o prefeito teria que aderir ao programa estadual Minas Consciente, de seu arquirrival Romeu Zema (Novo)– já que é preciso seguir algum protocolo sanitário.

A presidente da Câmara, Nely Aquino, vai criar uma comissão com cinco vereadores, eles vão dar o parecer sobre o projeto, que precisará de 21 votos favoráveis, o que é tido como garantido para a derrubada dos decretos.

Guerra

A Câmara Municipal declarou guerra ao prefeito Kalil e o estopim, para piorar a relação que já estava ruim, foi a queixa-crime do secretário de governo contra o vereador Gabriel Azevedo, que é um dos parlamentares mais influentes da casa, comanda um bloco que tem 25% dos vereadores e tem uma relação de muita proximidade com a presidente Nely Aquino.

Gabriel Azevedo, inclusive, era um aliado de Kalil e, na CPI da BHTrans, comandada por ele, a ideia era que ele brigasse com as empresas de ônibus para que Kalil não precisasse se desgastar. Mas a interferência de Adalclever segundo integrantes da CPI, azedou a relação.

Uma denúncia por dia

A partir de agora, de acordo com vereadores, até que Kalil exonere Adalclever Lopes, será feita uma denúncia de caixa 2 por dia. Depois que Adalclever sair, os parlamentares também querem que Kalil mude de postura e melhore o diálogo com o parlamento. Caso isso não aconteça, segundo eles, a Câmara vai dar andamento a um dos pedidos de impeachment que estão na casa contra o prefeito.

Collor

Só que tem uma questão: mesmo com os vereadores acreditando que tenham votos suficientes, o processo de impedimento, para ser concluído, levaria cerca de seis meses pelas contas de vereadores – apesar de o prazo regimental ser de três meses – e, se tivesse início imediato, terminaria em abril. No entanto, caso Kalil dispute a eleição para o governo do Estado, ele precisa renunciar seis meses antes, o que seria em março, antes do fim do processo. Mesmo que isso aconteça, segundo os parlamentares, durante esses cinco meses a Câmara iria 'sangrar' Kalil, prejudicando o prefeito para as eleições, e ele ainda ficaria com a fama de Fernando Collor, que renunciou antes de ser impedido. 

E outra coisa, mesmo com a saída de Adalclever, partidos que querem nomeações que o prefeito não atende vão continuar a briga.

O que dizem Adalclever e os interlocutores do prefeito?

Interlocutores do prefeito afirmam que toda essa investida contra Kalil tem dois motivos. Um dos motivos seria a frustração do vereador Gabriel Azevedo de não ter conseguido uma virada efetiva contra as empresas de ônibus, o que o credenciaria para ser candidato a prefeito em 2024. E o segundo motivo seria a atuação interessada da base de Romeu Zema em destruir a candidatura de Kalil.

Turma do Chapéu

Um fato curioso nessa história é ligação entre Gabriel Azevedo, que foi alvo da queixa-crime, Vitor Colares, que é chefe de Imprensa do prefeito, e Alberto Lage, que é ex-chefe de Gabinete. Os três eram da Turma do Chapéu, da juventude do PSDB. E Alberto Lage e Vitor Colares são sócios em uma empresa de comunicação e marketing. Agora estão Gabriel e Alberto de um lado e Vitor de outro e, pela informação de bastidores, até a sociedade entre Vitor e Alberto estaria ameaçada. A antiga Turma do Chapéu nunca foi amiga de Adalclever do MDB e parece que os anos passaram, mas a inimizade permanece.

A posição de Adalclever

Em conversa com a colunista, Adalclever Lopes respondeu a todas as perguntas e negou a existência de caixa 2 ou qualquer planejamento do tipo, disse que é alvo de muito ciúme pela articulação política que faz para o prefeito Alexandre Kalil e afirmou ainda que toda acusação falsa contra ele será alvo de processos que serão levados até as últimas consequências na Justiça.

Segundo Adalclever, que foi deputado estadual por quatro mandatos e presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) por duas vezes, independente da pressão que farão para a saída dele do cargo e do resultado dessa queda de braço, ele estará ao lado de Kalil, inclusive quando ele vencer a eleição para governador em 2022.

Sobre a ligação com o setor de transporte, segundo Adalclever, há quase 80 anos, a mãe dele é cozinheira e dona de um restaurante em uma parada de ônibus, a família é do ramo de transporte e ele nunca cometeu qualquer ilegalidade por isso. Ele considera que os adversários de Kalil estejam querendo atingir primeiro os alicerces do prefeito para enfraquecê-lo, mas que ele está preparado.

Adalclever será ouvido pela CPI da BHTrans e os vereadores vão tentar produzir prova de que ele teria tentado prejudicar os trabalhos da Comissão pra beneficiar empresas de ônibus.

Prefeito de BH

Kalil está fora de BH há três dias, mas retorna na segunda-feira (4).  Alberto Lage,  o ex-chefe de gabinete, teria enviado um e-mail, de sua conta institucional, para a corregedoria da prefeitura nessa sexta-feira (1º), com um áudio de Adalclever para Alberto Lage pressionar um publicitário famoso no mercado nacional, que é dono de uma agência que presta serviço para a prefeitura, para contratar e pagar por uma pesquisa de intenção de votos, já que em Minas e no Brasil agências de publicidade em anos anteriores foram usadas para lavar recursos de caixa 2 de campanha, como foi a acusação do mensalão mineiro, envolvendo Marcos Valério.

Reprodução

Resumo: a cidade está pegando fogo. Vereadores em guerra contra o secretário de Governo, apoiadores de Zema, que são opositores de Kalil na Câmara, botando lenha na fogueira para minar a campanha do prefeito ao governo e o prefeito de férias. Espero que quando ele voltar esteja bem descansado porque nos próximos dias ele não terá nenhum minuto de paz.