Edilene Lopes

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Cinco anos depois do rompimento da barragem em Mariana e ninguém foi punido

05/11/2020 às 04:31

A coluna Em Cima do Fato desta quinta-feira é a republicação de um texto escrito por mim cinco dias depois do rompimento da Barragem de Fundão, em 2015. Cinco anos depois, os questionamentos permanecem mais atuais. Ninguém foi punido. O sofrimento continua e os responsáveis permanecem livres. 

“Quando saí pra trabalhar na quinta- feira, eu nem imaginava que voltaria pra casa cinco dias depois. De calça social, sapatinho de salto, eu estava cobrindo um evento que discutia mineração, quando minha chefa me ligou e avisou que eu teria que ir correndo pra Mariana porque havia rompido uma barragem. Passamos na rádio, pegamos equipamentos, catei um tênis e uma galocha no porta-malas do meu carro e seguimos para o local da tragédia.  

Chegamos lá com a roupa do corpo, sem saber o que encontraríamos e quanto tempo teríamos que ficar. Mesmo com toda estrutura disponibilizada pela rádio, 24 horas depois, eu e o Vandinho (Wander de Freitas) não tínhamos dormido nada, esquecemos de almoçar e estávamos exatamente do jeito que chegamos e completamente sujos de terra.  Entramos pela primeira vez em Bento Rodrigues num carro que foi resgatar os ilhados, porque a entrada era proibida para carros da imprensa. Saímos de lá de carona em um veículo das forças de segurança até o nosso carro que estava a oito quilômetros de distância, numa estrada de terra, em Santa Rita Durão, onde foi montado o primeiro bloqueio da polícia.  

Com o passar dos dias, conhecemos os parentes, as vítimas, todos eles pelo nome.  E o nosso coração cortava a cada choro e a cada pergunta sobre se tínhamos uma nova informação. Quando os bombeiros autorizaram nossa entrada no ponto mais crítico de Bento Rodrigues, em uma estrada refeita por um trator, era inacreditável o que víamos.  A lama, uma espécie de areia movediça, chegou a 15 metros de altura, as casas foram totalmente tomadas e a maioria desapareceu, assim como a igreja do século XVIII. Estávamos pisando por onde tinha passado um mar de lama. Os poucos moradores autorizados a entrar, procuravam em pedaços de casa, documentos pessoais e dos imóveis. Quando a onda de lama chegou, eles saíram às pressas, sem documento, sem dinheiro, sem cartão e muitos não conseguiram puxar sequer, apesar do esforço, os parentes que acabaram levados pela força dos rejeitos e da água.  

Antes de entrar no centro de Bento, eu me coloquei lá, na hora do desastre, várias vezes. Cada vez que um sobrevivente me contava que havia visto um caminhão, uma caminhonete, uma casa sendo atingido e levado pela lama, eu me  via naqueles locais, sentia a lama bater em mim e o desespero dos que conseguiram e dos que não conseguiram se salvar. Nas coletivas da empresa e das autoridades, com toda a imprensa nacional e internacional, fiz todas as perguntas que pude e ainda tenho muitas pra fazer. Espero que as respostas concretas sejam dadas. Eu, Mônica Miranda, André Santos, Vandinho, Leandro Lara, Antônio Izidoro, Antônio Carlos, meus companheiros da Itatiaia, vimos em Mariana e região o que nós nunca imaginamos ver e queríamos que nunca tivesse ocorrido. Ninguém merece viver o que os atingidos pelo rompimento dessas barragens estão vivendo”.

Cinco anos depois: mais uma barragem rompeu, mais um rio foi poluído, mais 270 pessoas morreram e ninguém foi punido. Os responsáveis estão livres. 

As definições de palavras do dia a dia da política que citamos aqui você encontra no do ABC da Política, para consulta e compartilhamento no Instagram @reporteredilenelopes.

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