Edilene Lopes

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A face egoísta da briga pela prioridade na vacinação contra a covid-19

29/03/2021 às 04:55

Policiais federais e bombeiros também vão entrar na lista dos profissionais para os quais a Prefeitura de Belo Horizonte está planejando um cadastro de vacinação contra a covid-19. Informação em primeira mão aqui na coluna Em cima do fato.  A prefeitura está discutindo, na tarde desta segunda-feira, se policiais penais que atuam em unidades na capital, como o Centro de Remanejamento de Presos (Ceresp) também entrarão nessa lista.

Garis e forças de segurança

Nesse domingo (28), a prefeitura informou que está preparando cadastros para integrantes da Guarda Municipal, Polícia Militar e Polícia Civil, que atuam em Belo Horizonte, e para agentes da BHTrans. Garis, que são da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) e fiscais de Controle Urbanístico e Ambiental, da Secretaria Municipal de Política Urbana, também estão na próxima leva dos que preencherão o formulário.

Porque a prefeitura está abrindo cadastro pra esses profissionais especificamente? Porque eles não são da área da saúde, mas estão entre os profissionais que realizam serviço considerado essencial e estão em contato direto com o público.

E os coveiros?

Ontem, quando essa notícia foi divulgada, as pessoas perguntaram, com toda razão: e os coveiros? Os coveiros e pessoas que trabalham em serviço funerário estão entre os profissionais da saúde e, em BH, os que têm mais de 60 anos começaram a ser vacinados na última sexta-feira (26). O dia a dia desses profissionais é de contato direito com o público e com pessoas infectadas, já que eles carregam caixões de pessoas que foram vítimas da covid-19.

Responsabilidade dos municípios

A imunização direta da população é responsabilidade dos municípios, que devem obedecer a ordem nacional dos grupos prioritários de imunização, mas que dentro deles pode estabelecer uma escala de priorização. Ex: entre os profissionais de saúde, vacina-se do que tem mais risco sanitário para o que tem menos risco sanitário.

Segundo o plano nacional de vacinação, primeiro vêm os profissionais de saúde, depois idosos, população indígena ou quilombola, pessoas com morbidades, trabalhadores da educação, forças de segurança...

Liberdade limitada

Apesar de haver alguma liberdade de priorização nos estados e municípios, é preciso haver uma lógica bem justificada. Senão, ocorrem questionamentos como os feitos à Secretaria de Estado de Saúde, que é alvo de uma CPI: primeiro porque a secretaria vacinou diretamente os servidores da Superintendência Central, quando deveria ter passado a responsabilidade à PBH e segundo porque não teria respeitado o nível de exposição ao risco sanitário, vacinando administrativos antes de vacinar, segundo o MP, todos os funcionários da Fhemig e do Hemominas, e vacinando servidores até em home office.

Oficiais de Justiça

Diante da informação de que forças de segurança em breve se cadastrarão para vacinar na capital, os oficiais de Justiça, que cumprem mandados em casas, presídios e trabalham direto na rua também procuraram a coluna Em cima do fato e disseram que deveriam estar na lista.

Discordância na Assembleia

Na semana passada, o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, a Associação Brasiliense das Agências de Turismo Receptivo e o Sindicato de Servidores da Assembleia Legislativa de Minas Gerais conseguiram uma liminar judicial autorizando a compra de imunizantes sem ter que doar ao SUS, como prevê a lei, podendo usar as vacinas em benefício próprio.

O presidente da Assembleia Legislativa se posicionou contra e o Coletivo de Mulheres da Assembleia chegou a pedir que o sindicato desistisse da ação e algumas delas até decidiram pela desfiliação. Abaixo está a nota do coletivo.

Coletivo de Mulheres

"O Coletivo de Mulheres, que reúne trabalhadoras da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, e os abaixo-assinados, vêm a público manifestar seu repúdio e solicitar ao Sindicato dos Servidores do Legislativo do Estado de Minas Gerais – @sindalemg que desista da ação judicial impetrada para compra de vacinas contra a covid-19 para seus associados.

Obviamente, nós, como milhões de brasileiros, aguardamos com ansiedade nossa oportunidade de nos vacinar. No entanto, temos clareza de que, diante do cenário de escassez de vacinas, de falta de coordenação nacional, de lento processo de imunização, de divergência sobre grupos prioritários, de demora na vacinação de idosos, é, no mínimo, antiético usar recursos privados para gozar do privilégio de classe num contexto que pede o contrário: senso coletivo, empatia e solidariedade, sem falar de inteligência sanitária, que preconiza a vacinação em massa, não a individual, para a proteção da população".

Cada fura fila é um avô que fica para trás

A minha opinião é que tem que haver o mínimo de racionalidade e de compaixão neste momento. Os trabalhadores da saúde e os idosos que são os com maior risco de contaminação ou de agravamento nem foram todos vacinados ainda e já tem gente brigando para tomar a vacina na frente. Cada um que passa na frente na lista de prioridade é um pai, um avô ou um trabalhador que está cara a cara com o vírus e que fica para trás.

Se for discutir prioridade mesmo...

Se for discutir prioridade mesmo, tem um tanto de gente reivindicando e que corre menos risco que um caixa de supermercado, de farmácia, que um motorista de ônibus, de táxi, de aplicativo, alguém que pega coletivo lotado e até que muito jornalista.

Nós somos parte do serviço essencial, temos muitos e muitos colegas na rua, em porta de hospital, porta de delegacia, entrevistando em pontos de ônibus, em manifestação, em entrevista coletiva presencial. É nosso trabalho. E estamos tomando todo cuidado e aguardando nossa vez na fila, como deve ser. 

Postei no final de semana, nas redes sociais, uma reflexão comparando o que estamos vivendo à epidemia de cegueira escrita por José Saramago e falando justamente sobre um outro efeito claro da crise além doença e da morte. É que a pandemia mostra nossa melhor e nossa pior face. Chega a ser egoísta algumas brigas por prioridade na vacinação. Aí vem fura fila, compra de vacina na frente do governo federal, que também deveria estar bem mais ágil. Enfim, um caos.

Uma das tentativas dos congressistas agora será a compra de vacinas excedentes dos Estados Unidos, o que hoje já é feito pelo Canadá e pelo México. Tem político pensando também em lockdown em todo o Brasil por mais 30 dias, já que a taxa de transmissão está mais veloz que a vacinação. Esses assuntos todos são abordados no Podcast Abrindo o Jogo desta segunda-feira, que foi ao ar com o deputado federal Aécio Neves (PSDB).

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