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Impactos socioambientais da soja são definidos pelas próprias empresas produtoras

Estudo feito pela UFRGS diz que falta de organização e transparência dificultam obtenção de dados sobre desmatamento, trabalho escravo, uso de agrotóxicos e invasões de terras indígenas

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Organismos internacionais pedem mais transparência sobre a origem e produção da soja no Brasil, segundo relatório

Leila Costamilan Embrapa

Um relatório divulgado esta semana por pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Sociologia das Práticas Alimentares (SOPAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) revelou que grandes empresas produtoras de soja do país determinam as próprias normas do seu setor produtivo e definem se a cadeia produtiva do grão utiliza critérios de responsabilidade socioambiental - papel de fiscalização que deveria ser do Estado.

O documento mostra a ausência do Estado no processo de monitoramento e divulgação de dados sobre a produção de soja no país e a falta de uma definição sobre um processo produtivo sustentável nos relatórios das empresas, o que gera lacunas no rastreamento desta produção.

Vale lembrar, de acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), na listas das culturas agrícolas brasileiras em que mais se aplicam agrotóxicos, a soja aparece em primeiro lugar, seguida do milho, dos citros e da cana-de-açúcar.

Estudo analisou documentos públicos

As pesquisadoras analisaram documentos públicos das empresas da cadeia da soja e de relatórios de desempenho dos programas e certificações. Elas também realizaram entrevistas entre abril e junho de 2023 com representantes do setor e entidades ambientalistas envolvidas no debate sobre a sojicultura.

Falta organização e transparência

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Soja aparece no topo da lista entre as culturas mais contaminadas com agrotóxicos no país

Banco de Imagens CNA

O objetivo foi entender a governança na cadeia produtiva da soja no Brasil, diante da demanda por transparência e responsabilidade socioambiental dos mercados interno e externo. O relatório aponta que a partir do momento em que as empresas determinam suas próprias metas, sem que exista uma padronização sobre quais aspectos são relevantes e como tais informações devem ser divulgadas, torna-se difícil obter dados sobre desmatamento, trabalho escravo, uso de agrotóxicos e invasões de terras indígenas.

Marília Luz David, professora adjunta do departamento de Sociologia da UFRGS e autora do estudo, destaca a importância dos produtores de soja e o Estado brasileiro se sentarem para conversar, por exemplo, sobre regras mais rígidas para a compra de produtos de origem agropecuária.

Ela ressalta que a expansão agropecuária da soja é responsável, hoje, por altos índices de desmatamento no Cerrado, o que pode trazer perdas de fatias de mercado em países com normas de governança mais rígidas como a China e alguns países da União Europeia.

“Estes resultados nos permitem sugerir que uma maior participação do Estado é bem-vinda na regulação e padronização dos modos de rastrear a soja e reportar resultados, assim como na articulação de compromissos internacionais com os maiores compradores da soja brasileira – notadamente, a China”, afirma David.

O trabalho das pesquisadoras chama a atenção para a emergência de modelos corporativos de governança ambiental. “Um olhar a partir dos estudos sociais, das ciências e das tecnologias pode oferecer novas perspectivas para questões do agronegócio no país, em particular, quais visões de vida em sociedade – o que queremos para biomas como Amazônia e Cerrado? – estão incorporadas em tecnologias, formas de mensuração e avaliação de práticas produtivas que prometem tornar a cadeia da soja mais sustentável e responsável “, diz a pesquisadora.

Para dar continuidade ao trabalho, David e Ângela Camana, doutora em Sociologia pela UFRGS e coautora do artigo, pretendem seguir explorando os acordos corporativos de governança ambiental na cadeia da soja, principalmente como são definidas a “soja livre de desmatamento e de conversão de vegetação nativa”. “O termo aparece em diversos documentos de empresas do setor e, por isso, precisa ser estudado”, explicam as autoras.

Entramos em contato com as assessorias do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) para ouvirmos a posição deles. Assim que retornarem, acrescentaremos esse conteúdo.

Fonte: Agência Bori

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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais ‘Hoje em Dia’ e ‘O Tempo’ e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.



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