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Idosos do Chile precisam trabalhar mais para conseguir aposentar com salário mínimo

Por Alessandra Mendes , 17/09/2019 às 08:23
atualizado em: 17/09/2019 às 13:22

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Foto: Alessandra Mendes/ Itatiaia
Alessandra Mendes/ Itatiaia

Implantado há quase 40 anos, o sistema de capitalização chileno deixa muitos aposentados com remuneração bem inferior ao salário mínimo vigente no país e obrigando vários idosos a continuar trabalhando para ter condição de sobreviver. É o que mostra a segunda matéria da série “Los Hermanos: as reformas de lá pra cá”, veiculada nesta terça-feira no Jornal da Itatiaia. A enviada especial Alessandra Mendes passou dias no Chile e na Argentina para apontar aspectos positivos e negativos das reformas previdenciárias.

Ouça aqui a reportagem completa!

Aos 66 anos, a chilena Érika Paz se considera uma afortunada. O motivo: conseguiu se aposentar com um valor acima do salário mínimo. É uma exceção entre as amigas da mesma idade. Ser exceção, nesse caso, significa dizer que ela ganha dois salários mínimos. Muito distante do prometido no início da década de 80, quando o Chile passou a adotar o sistema de capitalização.

“Na época, em 81, foi dito que um aposentado não poderia ficar com menos de 70% do seu salário no momento. Essa foi a proposta e eu tomei minha decisão com base nisso, porque nesse momento eu era muito jovem, tinha em torno de 27 anos. Mas, atualmente, com os cálculos feitos há dois anos, quando me aposentei, fiquei com mais ou menos 32% do salário”, contou à Itatiaia.

Assim como Érika, muitos aposentados chilenos vivem a mesma situação. Vários deles com um quadro bem drástico de redução de renda. Elisabeth San Martin, de 67 anos, tentou fugir dessa situação prolongando o tempo de trabalho. Ao invés de se aposentar aos 60 anos, idade mínima para mulheres no Chile, trabalhou até os 66. Ainda assim, terminou com uma aposentadoria que corresponde a apenas 30% do salário que recebia.

“Eu ganhava um milhão e 100 mil pesos e agora aposentei com 326 mil pesos. Foram seis anos a mais aumentando o meu fundo, mas, ainda assim me aposentei com 326 mil pesos. É duro”, lamenta.

Como resultado de uma queda tão drástica na renda, Elisabeth conta que teve que deixar o sistema privado de saúde, chamado no Chile de Isapre, para entrar no sistema público, a Funasa.


Alessandra Mendes/Itatiaia

Impactos para saúde 

Mesmo para quem acredita que o novo sistema de previdência no Chile não gerou mais desigualdade, a queda brusca na renda é um problema real. E uma das saídas passa pelo investimento no sistema de saúde. É o que explica o professor de Direito de Trabalho e Seguridade Social da Universidade do Chile, Cláudio Palavecino.

“O descontentamento existe não porque a população velha viva na extrema pobreza ou na miséria. O descontentamento existe porque há uma brusca queda entre a renda da pessoa ativa e a aposentadoria. Na minha opinião, o que deveria ser fortalecido,  principalmente mirando a população mais velha, é o sistema de saúde. Eu acredito que a preocupação principal da população mais velha tem a ver com o acesso a uma saúde de qualidade e de baixo custo, ou gratuita”.

Leia também: No Chile, vários trabalhadores se aposentam com menos de 50 mil pesos, equivalente a R$ 170

Saúde é mesmo um tema caro para os chilenos no momento. Em especial, para os mais velhos. Muitos deles acabam migrando para o sistema público de saúde do país após a aposentadoria por causa dos valores baixos dos benefícios. E a queda na renda acaba desencadeando um processo de adoecimento, que vai inflar a demanda na saúde pública. Foi o que aconteceu com a aposentada Yasmir Fariña, de 66 anos.

“Fui informada que aposentaria com 32% do meu salário, o que me provocou um processo de depressão porque viver com 32% significava perder o sistema de saúde, meus remédios também, já não poderia seguir com meu tratamento de lúpus. Significou uma caída em uma forte depressão. Para mim não foram os anos dourados. Muito pelo contrário”, relatou.

Yasmir não é a única nessa situação. Ela conta que conhece diversos aposentados que estão vivendo com depressão e até mesmo de pessoas que tiraram a própria vida.“Me tocou especialmente o caso de uma mulher que se suicidou por causa de sua situação econômica de empobrecimento. E amigas minhas que chegaram a certas situações que poderiam tirar suas vidas. Temos conversado como podemos organizar as mulheres, com a mesma idade e aposentadas da universidade, e fazer um fundo comum para viver e comer e poder nos ajudar umas às outras”.

O suicídio de idosos no Chile foi um tema muito discutido no Brasil quando se falou na possibilidade de mudança do modelo de previdência social para a capitalização adotada por lá. As mortes dos idosos chilenos estariam relacionadas à situação das aposentadorias.

Apesar de ter casos, é preciso esclarecer que não é bem assim. Nem o próprio governo chileno tem dados que demonstrem essa relação direta. Segundo números da Organização Mundial de Saúde, o Chile ocupa a posição 118 no ranking de mortalidade por suicídio de idosos, com uma taxa no ano de 2016 de 15,4 casos para cada 100 mil. O que representa pouco mais da metade da média mundial, mas longe da liderança dessa triste estatística.

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Mais trabalho 

Para evitar os impactos decorrentes da queda brusca na renda com a aposentadoria, como acontece na saúde, os idosos no Chile têm prolongado os anos de trabalho cada vez mais. Mario García, de 63 anos, que trabalha na manutenção de áreas verdes em Santiago, conta que quase todos os colegas aposentados seguem trabalhando porque o dinheiro não dá. E ele vai seguir o mesmo caminho.

“Me faltam dois anos para a aposentadoria, mas o que pagam não é o suficiente e tenho que seguir trabalhando, não posso descansar. O salário não é baixo, é baixíssimo”, disse.

Aos 55 anos, Juan Guilhermo, que trabalha com serviços gerais afirma que nem sabe quando vai aposentar. O motivo? La plata.“Tenho pouco dinheiro na AFP, no fundo. Então já fizeram o cálculo de quanto eu iria receber e daria uma aposentadoria de 75 mil pesos (Cerca de R$ 435).75 não é nada!” 

Hoje, o salário mínimo no Chile é 301 mil pesos, o que corresponde a cerca de R$ 1.700. E tem muito aposentado vivendo com menos da metade do mínimo. Alguns seguem trabalhando com carteira assinada, outros vão para a informalidade e há aqueles que não conseguem nenhuma das duas opções. 

Para aumentar a renda, o aposentado Ernesto Guanavayo, de 68 anos, virou catador de papel. Ele passa os dias revirando caçambas e lixeiras em bairros de classe média de Santiago, capital chilena. É seu meio de sobrevivência, já que a aposentadoria é muito baixa.“É 103 mil pesos (cerca de R$ 597). Muito menos que o mínimo, quase que um terço do mínimo”, lamenta.

E como faz pra viver? “Trabalhando nisso e tenho que pagar luz, pagar gás, pagar telefone. Não tenho nada, nenhum problema de saúde, mas, se eu tiver alguma coisa, não sei o que faço”, ressalta o aposentado.

Pensando em casos como o do Ernesto, o governo chileno estuda uma nova mudança no sistema previdenciário do país.

Nesta quarta-feira (18), a terceira reportagem da série especial vai explicar quais as alterações propostas, como elas afetariam a vida dos aposentados e como esse modelo chileno conversa com o projeto de reforma da Previdência que tramita no Senado brasileiro. 

 

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