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Fundador da primeira escola de samba, Ismael Silva foi regravado por Mumuzinho e Gal Costa

Compositor carioca é o maior parceiro de Noel Rosa e dono de sucessos como 'Se Você Jurar' e 'Não Tem Tradução'

Por Raphael Vidigal , 14/09/2021 às 17:27
atualizado em: 14/09/2021 às 22:20

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Foto: Museu da Imagem e do Som/Divulgação
Museu da Imagem e do Som/Divulgação

Ismael Silva foi parceiro de Noel, perdeu o amigo Nilton Bastos e ficou preso durante 2 anos

Milton de Oliveira Ismael Silva, conhecido nas rodas de samba apenas como Ismael Silva, nasceu no dia 14 de setembro de 1905, em Niterói, e morreu no Rio de Janeiro no dia 14 de março de 1978, aos 72 anos. Filho do cozinheiro Benjamim da Silva e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, ele era o mais novo de cinco irmãos. Aos três anos, Ismael ficou órfão de pai e, com a mãe Emília, rumou para o Rio de Janeiro. Lá, começou a ser criado no bairro do Estácio, onde fundou a primeira escola de samba de que se tem notícia, a Deixa Falar. 

Ao lado de Nilton Bastos, travou amizade com Noel Rosa, com quem compôs 18 sambas, tornando-se o parceiro mais frequente do Poeta da Vila. Entre os sucessos da dupla estão “A Razão Dá-se a Quem Tem”, “Adeus”, “Não Tem Tradução”, “Para Me Livrar do Mal” e “Quem Não Quer Sou Eu”, entre outras. Os dois também gravaram um divertido dueto em “Seu Jacinto”, marcha de Noel lançada em 1933 e regravada por Maria Alcina. Sozinho, Ismael Silva compôs clássicos do porte de “Contrastes” e “Antonico”. Já a célebre “Se Você Jurar” é parceria com Nilton Bastos, que morreu de tuberculose aos 32 anos. 

Um fato trágico também marcou a vida de Ismael. Após atirar em Edu Motorneiro, um frequentador da boemia carioca, ele foi condenado a cinco anos de prisão, e cumpriu dois por bom comportamento. O episódio o tornou uma pessoa reclusa e desconfiada, além de enfrentar problemas financeiros que o levaram a compor o samba “Antonico”, em 1950. Ismael Silva gravou o seu derradeiro LP em 1973, por iniciativa do estudioso Ricardo Cravo Albin. Em 1988, Jards Macalé e Dalva Torres dedicaram um espetáculo à sua obra única. 

“Se Você Jurar” (samba, 1931) – Ismael Silva e Nilton Bastos
O samba “Se Você Jurar”, composto em 1931, tornou-se uma das músicas mais conhecidas do repertório de Ismael Silva. Grande sucesso no Carnaval daquele ano, cantada pela dupla formada por Mário Reis e Francisco Alves, “Se Você Jurar” recebeu diversas regravações, entre elas as de Beth Carvalho, João Bosco e Casuarina. Além disso, alimentou-se por muito tempo uma polêmica sobre a autoria da canção. Orestes Barbosa e Mário Reis afirmavam que ela era apenas de Nilton Bastos, Francisco Alves dizia que era dele e de Nilton, e Ismael Silva garantia que a compusera ao lado de Nilton. Fato é que ela continua sendo cantada a plenos pulmões. Mumuzinho a gravou em 2018.

 

 

“Nem É Bom Falar” (samba, 1931) – Ismael Silva e Nilton Bastos
Segundo Zuenir Ventura, “Nem É Bom Falar” disputa com “Antonico” o título de samba mais popular de Ismael Silva. Lançado em 1931, o samba é uma parceria com Nilton Bastos, e fez enorme sucesso naquele mesmo ano, ao receber a voz de Francisco Alves, o Rei da Voz. Na gravação, os próprios autores acompanharam o cantor, em um grupo que intitularam de Bambas do Estácio. A música recebeu uma regravação, também de sucesso, de Mário Reis, antítese do canto encorpado de Francisco Alves, mas que apostava na suavidade com o mesmo apuro técnico, e influenciou nomes como João Gilberto. “Nem É Bom Falar” recebeu uma regravação de Marcos Sacramento. 

 

 

“A Razão Dá-se a Quem Tem” (samba, 1932) – Noel Rosa e Ismael Silva
De uma dessas sacadas espertas de Noel Rosa, em que ele se valia de ditados populares que pipocavam na boca do povo, nasceu o título do samba “A Razão Dá-se a Quem Tem”, parceria com Ismael Silva lançada em 1932, em um dueto saboroso de vozes que se complementavam pela diferença: o vigor de Francisco Alves com a precisão de Mário Reis. Em 1972, Elza Soares e Roberto Ribeiro reencenaram esse dueto, no disco “Sangue, Suor e Raça”, que eles dividiram juntos. Outras regravações vieram de Aracy de Almeida, Arnaldo Antunes, Cláudio Jorge com Augusto Martins e de Pedro Miranda com Caetano Veloso. Em todas elas, manteve-se o frescor desse delicioso samba. 

 

 

“Para Me Livrar do Mal” (samba, 1932) – Noel Rosa e Ismael Silva
São 35 os registros contabilizados de “Para Me Livrar do Mal”, samba de Noel Rosa e Ismael Silva lançado em 1932, na voz de Francisco Alves. Aliás, em muitos sambas da dupla, Francisco Alves também aparece como compositor, o que revela um expediente comum na época: pagar para ter o nome incluso na parceria. Em troca, o cantor ou radialista consagrado, oferecia a oportunidade de tocar no rádio. “Para Me Livrar do Mal” ganhou, ao longo do tempo, as vozes de Dóris Monteiro, Miltinho, Marília Batista, Aracy de Almeida, Martinho da Vila, Cristina Buarque, Ivan Lins, Elza Soares, Ciro Monteiro, MPB-4, Os Originais do Samba, e outros, o que só comprova o seu sucesso permanente. 

 

 

“Adeus” (samba, 1932) – Noel Rosa e Ismael Silva
No dia 8 de setembro de 1931, Nilton Bastos, amigo de muitas e boas de Ismael Silva e Noel Rosa, além de parceiro de ambos em sambas célebres, faleceu vítima de tuberculose, aos 32 anos. A doença também vitimaria Noel, em 1937, quando ele tinha apenas 26 anos. A tristeza pela partida precoce de Nilton levou Ismael e Noel a comporem o samba “Adeus”, lançado em 1932 pela dupla formada por Castro Barbosa e Jonjoca. Em 1975, Vinicius de Moraes e Toquinho registraram outra versão sensível da canção. “Adeus, adeus, adeus/ Palavra que faz chorar/ Adeus, adeus, adeus/ Não há quem possa suportar/ Adeus é tão triste/ Que não se resiste...”, cantam os saudosos. 

 

 

“Tristezas Não Pagam Dívidas” (samba, 1932) – Ismael Silva
Quando a percepção é verdadeira, ela atravessa os séculos. É o que acontece, por exemplo, com o samba “Tristezas Não Pagam Dívidas”, composto por Ismael Silva em 1932, cujo título já apresenta uma dura constatação, ainda mais em uma sociedade em que o dinheiro dita todas as normas. Lançada por Francisco Alves, a música recebeu regravações inspiradas de Ciro Monteiro, Silvio Caldas e Elizeth Cardoso. Para além do aspecto econômico, a letra, porém, contém um indicativo do machismo vigente na época, esse fantasma insepulto que insiste em assombrar as gerações futuras. “Tristezas não pagam dívidas/ Não adianta chorar/ Deve-se dar o desprezo/ A toda mulher que não sabe amar”, lamenta o eu-lírico ressentido, que não perde a chance de chorar. 

 

 

“Não Tem Tradução” (samba, 1933) – Noel Rosa e Ismael Silva
Claro que Noel Rosa não poderia ficar de fora desse fuzuê. Com o bamba Ismael Silva, ele compôs, em 1933, o samba “Não Tem Tradução”, que acusava o cinema falado de ser o grande culpado pela mania de expressões estrangeiras no país. “Amor lá no morro é amor pra chuchu/ As rimas do samba não são ‘I love you’/ E esse negócio de alô/ Alô boy, alô Johnny/ Só pode ser conversa de telefone”, dizia a canção. Sucesso que atravessou décadas, a música foi lançada pelo Rei da Voz, Francisco Alves, e depois ganhou regravações marcantes de João Nogueira, Aracy de Almeida, Caetano Veloso, Teresa Cristina e até da diva e atriz Bibi Ferreira. Só uma prova de eternidade.

 

 

“Peçam Bis” (samba, 1934) – Ismael Silva
Tocando um trombone de boca, Jards Macalé inicia o samba “Peçam Bis”, composto por Ismael Silva em 1934. A canção é recheada de uma deliciosa ironia. “Se não gostarem/ Não digam nada a ninguém/ Senão os outros/ Não vão me aturar também”, pede o refrão da música que deu título ao espetáculo dedicado a Ismael em 1988, e protagonizado por Macalé e Dalva Torres, em uma iniciativa da Funarte (Fundação Nacional de Artes). A música também ganhou um registro no álbum “Ismael Silva: Uma Escola de Samba” (2015). “Além de recuperar uma obra quase esquecida, Augusto Martins e Cláudio Jorge ambientam a música de Ismael Silva em seu habitat natural, as rodas de samba. Isso é importante porque ela sempre foi gravada de forma diferente, amaxixada nos anos 1930, como era hábito, e com orquestra nos estúdios quando foi redescoberta nos anos 60”, avalia o crítico musical Hugo Sukman.

 

 

“Boa Viagem” (samba, 1935) – Noel Rosa e Ismael Silva
Composto por Noel Rosa e Ismael Silva, o samba “Boa Viagem” ganhou a voz de Aurora Miranda em 1935, e se transformou em um sucesso imediato. Muitos anos depois, já em 2019, o samba foi resgatado pelo ativista do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos, filiado ao PSOL. Em uma postagem nas redes sociais, Boulos recuperou a letra para ironizar o então Ministro da Economia, Paulo Guedes, que ameaçava deixar o Brasil. “Se não mandei você embora/ Enfim, foi porque/ Me faltou a coragem/ Mas se você vai dar o fora/ Então, passe bem/ Boa viagem!”, desabafa a abertura do samba, que ganhou regravações de Ivan Lins e do próprio Ismael Silva, esta em 1973. 

 

 

“Antonico” (samba, 1950) – Ismael Silva
Composto em 1950 por Ismael Silva, o samba “Antonico” foi registrado por ele em disco de 1973, fruto do espetáculo “Se Você Jurar”, dirigido por Ricardo Cravo Albin. Em 1967, Elza Soares já o havia gravado no disco “Elza, Miltinho e Samba”, em que cantava algumas músicas ao lado do cantor Miltinho. Apesar das constantes negativas de Ismael, especula-se que a música seja autobiográfica, devido às dificuldades financeiras que o compositor passou após sair da prisão. Em uma carta escrita por Pixinguinha em 1939, endereçada ao musicólogo Mozart de Araújo, ele dizia: “Espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim.” Quase os mesmos versos presentes em “Antonico”, regravados por Martinho da Vila e Gal Costa. 

 

 

“Nome Feio” (samba, 1965) – Ismael Silva
Um dos sambas mais espirituosos de Ismael Silva é, na mesma medida, um dos menos conhecidos de sua lavra. O título já é por si só uma provocação que poucos teriam a coragem de praticar, talvez se excetuando o bom e velho companheiro Noel Rosa, com quem Ismael, certamente, apreendeu muito do espírito galhofeiro. “Nome Feio” foi apresentado por Ismael Silva em 1965, no Café Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Alguns anos depois, em 1988, ganhou a interpretação de Dalva Torres, no espetáculo que ela dividiu com Jards Macalé em homenagem a Ismael. “A vocês vou fazer um pedido/ Não é de dinheiro/ Não tenham receio/ Se o meu nome ficar esquecido/ Pra não me chamarem/ De nenhum nome feio/ Nome feio a que me refiro/ Não é nada disto que já estão pensando/ É Brás, Fedegoso, Pancrácio, Belmiro/ Adão, Brederodes, Pafúncio, Rolando”, avisa a letra, farte de nuances e boas tiradas.

 

 

“Coisa Louca” (tango, 1972) – Ismael Silva
Ismael explora um ritmo que poucas vezes apareceu em sua discografia, basicamente dedicada ao samba que ele ajudou a formatar, realizando a transição do maxixe para o gênero bem brasileiro, mesclando influências da diáspora africana e incorporando tendências dos novos tempos. Com “Coisa Louca”, gravada pela primeira vez em 1972, ele explora o tango, que se adequa bem à dramaticidade da letra. “Aquele beijo foi uma coisa tão louca/ Que te confesso com toda a sinceridade/ Se eu pudesse jamais lavaria a boca/ Pra não perder aquela sensibilidade”, confessa ele na letra, dando uma de Augusto dos Anjos. A música foi lançada por Elza Soares e Roberto Ribeiro. 

 

 

“Contrastes” (samba, 1973) – Ismael Silva
Ismael Silva foi um bamba de primeira qualidade, fundador da primeira Escola de Samba do Brasil, a Deixa Falar, que incentivaria o surgimento das posteriores. Parceiro de Noel Rosa em “A Razão Dá-se a Quem Tem”, e de Nilton Bastos na clássica “Se Você Jurar”, autor da dolorida “Antonico”, gravada por Elza Soares e Gal Costa, ele compôs, em 1973, o samba “Contrastes”, uma preciosidade que seria resgatada pelo olhar atento do irrequieto Jards Macalé, no ano de 1977. A canção deu título ao álbum mais elogiado do artista, que recebeu a pecha de “maldito” da indústria fonográfica por seu comportamento independente. Com perspicácia, a letra de “Contrastes” é um apanhado das contradições do Brasil: “Existe muita tristeza/ Na rua da alegria/ Existe muita desordem/ Na rua da harmonia/ Analisando essa estória/ Cada vez mais me embaraço/ Quanto mais longe do circo, mais eu encontro palhaço…”. Ela foi regravada por Luiz Melodia.

 

 

*Bônus 
“Seu Jacinto” (marcha, 1933) – Noel Rosa

Cronista habilidoso, Noel Rosa compôs, em 1933, uma marcha que tinha como alvo o sujeito de quem ele, marotamente, tirava sarro: “Seu Jacinto”. A música foi lançada pelo autor em parceria com seu amigo Ismael Silva. Em determinada parte da letra, Noel diz: “O Seu Jacinto é cheio de chiquê/ Eu não sei dizer por que/ Dorme de cartola e fraque”. Pela fidalguia de seus torcedores, associados à elite carioca, o Fluminense adotou como mascote a figura do cartola, desenhado pela primeira vez pelo cartunista argentino Lorenzo Mollas em 1943.

 

 

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