Ursula Nogueira

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Diário de Bordo: 18 horas em São Petersburgo

Um day-off para, literalmente, me permitir folgar e mergulhar na história construída por tantos deuses e demônios. Uma viagem do santo ao profano em observações que nunca mais serão esquecidas.

12/07/2018 às 03:09

São 35 dias na Rússia e nenhuma programação pessoal, até que aparece uma pequena folga e uma grande disposição para um passeio inesquecível. Se não fosse assim, eu iria ao país bicontinental, pertencente a Ásia e Europa, sem conhecer uma de suas cidades mais bonitas: São Petersburgo

Saí de Moscou às 22h50 rumo à “capital cultural da Rússia”. Foram sete horas de viagem para um passeio de aproximadamente 18 horas, e outras sete horas retornando à cidade em que estou hospedada junto com a equipe da Rádio Itatiaia. 

Se os 635 km entre as metrópoles foram percorridos de trem, o passeio por São Petersburgo foi feito todo a pé. Um day-off para, literalmente, me permitir folgar e mergulhar na história construída por tantos deuses e demônios. Uma viagem do santo ao profano em observações que nunca mais serão esquecidas.

Estar entre milhões de pessoas em um local cheio de contos e flores, que exalam romantismo e percepções, me trouxe a consciência de que nossa individualidade constrói a sociedade, mas que, por sua vez, nos aproxima uns dos outros e de nossas infinitas possibilidades de observar o mundo. Entre tanta riqueza de detalhes, monumentos com folhas em ouro, tanto suor, tantas vidas vividas e perdidas, o pensamento voa longe. A teoria da grandiosidade humana atravessa o coração dos czares e se solidifica nas construções que se perdem de vista. Para se fotografar uma igreja por completo e caso queira aparecer na foto, é preciso programar o celular e parecer como um pontinho apenas. Nestes locais, somos apenas uma miniatura diante da grandiosidade cultura e histórica. 

Pois bem. Agora é hora de vocês entenderem o porquê do desdobramento em quilômetros e horas para conhecer a cidade mais ocidentalizada da Rússia e mais setentrional do mundo. Seu centro histórico e monumentos constituem um Patrimônio Mundial pela UNESCO, sediando um dos maiores museus de arte do planeta. Bora conhecer um pouco?

Catedral de Kazan


É um ponto de encontro entre a história e a religião, se é que tem como desvinculá-los. Construída entre 1801 e 1811, a Catedral de Kazan foi inspirada na Basílica de São Pedro, em Roma, com o objetivo de abrigar a imagem de Nossa Senhora de Kazan, uma das relíquias mais veneradas da Rússia. Além da santa, a igreja guardou também objetos de glórias militares, tornando-se, ainda no século XIX, um memorial da célebre vitória russa sobre Napoleão. 

Ponto forte em sua história, a Catedral foi fechada durante o período comunista, sendo reaberta depois como um museu do ateísmo, mas devolvida à Igreja em 1992.

Com um passado que traz tantas memórias avessas à religião, o que mais chama a atenção ao visitá-la é ver sua importância para a fé local. Por lá você consegue entender e sentir de perto a relação do povo russo e sua religião. 

Catedral Saint Isaac


É a maior igreja ortodoxa de São Petersburgo, a 4ª maior do mundo e, por isso, é mais museu que um ponto religioso - embora realize algumas cerimônias. Se a Catedral de Kazan demorou 10 anos para ser construída, a Igreja de Santo Isaac demorou 40 anos, iniciando as obras em 1818. Ela também sofreu com o comunismo, que suspendeu seus serviços religiosos. Na II Guerra Mundial, a igreja serviu de depósito para obras de arte de museus e palácios da cidade. Apenas em 1990 ela retomou as cerimônias religiosas. 

É possível visitar sua cúpula dourada, banhada a ouro, que fica a 101,5 metros de altura. De lá, tem uma boa vista da cidade, assim como de vários lugares se vê a Igreja. As escadas de ferro, com vãos entre os degraus, são lindas, mas fica o alerta para quem tem medo de altura. 

Almirantado de São Petersburgo


De estilo imperial, construído entre 1806 e 1823, o Almirantado é a antiga sede do Conselho de Almirantes e Marinha Imperial Russa. Sua proposta era simbolizar as ambições marítimas do czar e, para chegar a construção atual, passou por bastante mudanças. Era apenas um estaleiro fortificado, recebendo mais tarde cinco baluartes e proteção de fosso. 

Seu destaque é o pináculo dourado com um cata-vento em forma de um navio de guerra, que pode ser visto de vários lugares e é o ponto principal das três famosas ruas antigas de São Petersburgo:  as avenidas Névski e Voznesensky, e a rua Gorokhóvaia. Isso mostra o quanto a Marinha Russa tinha poder no comando de Pedro I.

Canais de São Petersburgo 


São Petersburgo é conhecida como “A Veneza do Báltico ou a Veneza do Norte”. A cidade é cortada por diversos canais, por estar em frente ao golfo da Finlândia, às margens do Rio Neva, possuindo mar, rios e golfo. A diversão são os passeios de barco, que passa por outros diversos pontos turísticos, com possibilidade de descer em cada atração com tempo pré-determinado em cada local.

Navio Aurora


Ponto importante do turismo, mas, principalmente, da história de São Petersburgo. O Navio Aurora foi um presente enviado pelos ingleses para a cidade. A ideia era que ele permanecesse no Porto, vigiando as entradas e saídas do local para os russos. Atualmente é um espaço de visitação, que vale muito a pena conferir!

Cavaleiro de Bronze


Outra atração que não pode ficar fora do seu roteiro. É uma estátua de Pedro, o Grande, em cima de seu cavalo, em uma clássica representação da história russa e uma das obras mais significativas da literatura local. Foi pedido por Catarina II ao escultor francês Étienne Maurice Falconet. 

O pedestal da estátua é a Pedra do Trovão, a maior pedra já movida pelos humanos. A pedra pesava inicialmente cerca de 1500 toneladas, e foi esculpida até 1250 toneladas durante o transporte para seu local atual.

Torres Rostral Columns


Mais um marco da Marinha Russa em São Petersburgo. São duas grandes colunas, que direcionavam os navios no Rio Neva. Atualmente é um espaço de visitação, também com caráter histórico. É um ótimo espaço para tirar fotos e apreciar um mirante para outros pontos da cidade, como o Museu Hermitage e o Edifício do Almirantado. 

Catedral de São Pedro e São Paulo 


Fica no Forte que leva o mesmo nome e marca o nascimento da cidade de São Petersburgo, em 1703. A Catedral de Pedro e Paulo foi construída entre 1712 e 1733 para ser a matriz da, até então, capital russa. Por lá estão enterrados todos os czares, desde Pedro, o Grande. As exceções são Pedro II e Ivan VI. Os últimos foram da família Romanov, assassinada pelos bolcheviques em 1998. 

A Igreja recebe celebrações religiosas, e é bonito de ver todo o complexo do Forte. As exposições são uma aula da história mundial. É tanto brilho que encantam os olhos e o coração. 

Catedral do Sangue Derramado


Foi derramado sangue de um assassinato ali. Por isso o nome. Também conhecida como Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado, foi construída por Alexandre III em 1883 e demorou 24 anos para ficar pronta. Era uma homenagem a seu pai, czar Alexandre II, assassinado naquele local. 

Difícil saber se ela é mais bonita por dentro ou por fora e com qual iluminação: natural do dia ou à energia, à noite. Ela é completamente decorada por mosaicos, sendo a maior coleção russa do estilo, com mais de 7 mil metros quadrados. Particularmente um dos lugares mais lindos que já vi. Fico pensando como a inteligência humana pode e deve ser usada para o bem. Para ações maravilhosas como esta igreja. Pedra por pedra foi colocada ali. Estilo de cores, conjunto de imagens e detalhes que não se consegue com pessoas ‘’normais”. Tem algo divino nas mãos e mentes desses seres usados por Deus.

Museu Hermitage


Está em São Petersburgo um dos melhores museus do mundo. Seu nome oficial é Museu Estatal Hermitage, um complexo composto por cinco edifícios - entre eles, o Palácio de Inverno, residência oficial dos czares por 150 anos. Sua construção foi em meados de 1754, a pedido da imperatriz Elizabeth Petrovna, que queria ofuscar todos os palácios da Europa. Sua sucessora, Catarina II, anexou mais três edifícios: o Pequeno Hermitage, o Grande Hermitage e o Teatro Hermitage. Foi dela as primeiras obras do acervo, que pode ser visto até hoje.

O legal do gigantesco Museu Hermitage é que ele é lindo de todo jeito: se você gosta de coleções de arte, ótimo! Vai se encantar com um acervo de 3 milhões de peças. Mas, se não, ainda assim vai ficar impressionado com o ambiente de palácio, um dos mais belos do mundo, que já vale à visita. Parece um lugar sem fim: prédios enormes e iluminados. Não consegui visitar nem um décimo do museu. Já não tinha mais condições físicas embora minha mente quisesse continuar no mergulho histórico.

Foram 18 horas andando por São Petersburgo. Já sem força nas pernas e com uma fome que grudava o estômago nas costelas, chegou o esperado e famoso Carbonara, em uma tradicional casa de massas, Trattoria dA Stefano, numa paralela à Avenida principal, Nevsky Prospekt. Já com 65 horas sem dormir, após o almoço/janta precisei me levantar logo da mesa porque estava pescando até tubarão. As panturrilhas já não existiam. A viagem no trem da ida foi um pouco mais tranquila, mas o retorno foi um tanto quanto tumultuado. Veja só como era:

 

E foi assim, conheci um pouco da história que me fez mais próxima de nossos antepassados, da capacidade humana de se eternizar na história, deixar legados e de ser tão diferente, mesmo vindo, todos nós, do mesmo lugar, e de que a natureza e Deus são duas coisas que, independentemente da cultura, andam juntos. Foi um dia que valeu por uma vida. Não haverá dia algum como este. Talvez melhores ou piores, mas nunca igual. 

Foi muito bom te conhecer, São Petersburgo.

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