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José Lino Souza Barros

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Um caso perdido

Um caso perdido 

18/03/2017 às 11:59
Ouça na Íntegra
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Ouça a narração da crônica na voz de José Lino Souza Barros 

A princípio, a família foi contra:
— Esse sujeito não presta! É um bestalhão! Para começar não trabalhava, nem queria nada com o trabalho. Além disso, bebia, jogava... Dizia se, mesmo, que uma mulher, de péssimos antecedentes, o sustentava. Os parentes de Elisa tentaram dissuadi-la da paixão inconveniente e escandalosa:
— Homem é o que não falta. Escolhe outro, escolhe um que valha a pena.
— É de Humberto que eu gosto. Os outros não me interessam. Amava-o desde menina; e, através dos anos, não achara graça em mais ninguém. A rigor, só ficou impressionada uma vez, uma única vez. Foi quando lhe disseram que o namorado vivia às custas da tal mulher. Elisa saltou: “Mentira! Calúnia!”. Mas, apesar da reação inicial, muito veemente, a dúvida ficou. Acabou fazendo ao bem-amado uma pergunta frontal:
— Que negócio é esse que me contaram?
— Que foi?
Ela, sem tirar os olhos dele, disse:
— Que você toma dinheiro de mulher.

Imprensado pela garota que, na verdade, era seu primeiro e grande amor, Humberto teve, diante de si, dois caminhos: ou negar ferozmente ou... Ia negar, em pânico. Mas quando abriu a boca, deu uma coisa nele, uma espécie de heroísmo súbito, quase histérico. De olhos esbugalhados, a boca trêmula, fez a revelação:
— É verdade, sim. Tomo dinheiro de mulher. Sempre tomei.
A menina cobriu-se de uma palidez mortal, como nos velhos romances. Mal pôde suspirar:
— Humberto!
Foi uma cena magnífica e atroz. Ele, foi até o fim, contou tudo, sem omitir nada. Disse que, sem emprego, sem níquel, aceitava dinheiro de uma, de outra. Por fim, flagelou-se, cruelmente, aos olhos da garota; chamou-se de “canalha”, “patife”, “caso perdido”. E terminou, num desafio frenético:
— Você sabe tudo. E agora pode me cuspir na cara. Cospe! Anda, cospe!
Ofereceu o rosto. E como Elisa, petrificada, não dissesse uma palavra, não esboçasse um gesto, ele caiu em uma crise medonha de choro. Então, a menina, que era um anjo autêntico, teve uma dessas comoções que não se esquecem. E, se já o amava antes, agora muito mais. Aos seus olhos, a confissão do bem- amado o purificara de tudo e de todos. 
Então, mais calmos, os dois combinaram tudo: data do casamento etc. etc. No fim, Elisa impôs apenas uma condição:
— Você vai me prometer uma coisa.
— O quê?
— Que nunca mais aceita dinheiro de mulher. É tão feio!
— Te juro! Te dou minha palavra de honra! 

E, de fato, a partir da confissão, Humberto foi outro homem. Deixou de beber, de jogar e fez mais: devolveu à tal mulher que o sustentara um relógio, um anel com suas iniciais, um cinto com fivela de prata, um porta-chaves caríssimo. Rompeu, em termos definitivos, com todas as suas antigas ligações. Foi uma mudança tão patética que o próprio futuro sogro, que era um espírito de porco, se deixou impressionar: “Parece que meu genro tomou vergonha”. E o resto da família em coro:
— Tomara! Tomara!
Dois dias antes do casamento, Humberto ia chegando em casa quando deu de cara com a mulher que o sustentara. A alma caiu-lhe aos pés. Em pânico, olhou para todos os lados: “Imagine, se vissem”. Arrastou-a para um canto discreto; e, lá, discutiram, em voz baixa. A mulher fez uma súplica desesperada, que o horrorizou.
— Só essa vez! Só essa vez!
— Você está maluca? Não pode ser! Vou me casar amanhã! A outra agarrava-se a ele:
— É a despedida, Humberto! — E teimava no argumento: — “Pela última vez!”.
Na verdade, o que a tentava, naquele momento, era o noivo alheio, o noivo da outra, na antevéspera do casamento. Mas lembrou-se, de Elisa e, fazendo das tripas coração, desprendeu-se histericamente, arremessou-se para dentro de casa. 
A mulher, do lado de fora, uivava:
— Te dei muito dinheiro, cachorro! Olha, não me troco pela lambisgóia da tua noiva!
No dia seguinte, Humberto contou tudinho à noiva. Descobrira que era negócio dizer a verdade e, mesmo, exagerar a verdade. A noiva, maravilhada com esta sinceridade, deu-lhe um beijo na testa.

O rapaz não tinha emprego. Mas o sogro foi de uma generosidade impressionante. Chamou-o:
— O negócio é o seguinte: para mim, tanto faz que meu genro trabalhe ou deixe de trabalhar. Contanto que trate bem a minha filha.
Dito e feito. Casaram-se e nunca faltou nada naquela casa. Todos os dias, de manhã, Elisa, da maneira mais delicada e sutil possível, enfiava no bolso da calça do marido uma cédula, ora de vinte, ora de cinqüenta, ora de cem reais.
Foi quando o sogro, com a autoridade de quem corre com as despesas, exigiu um neto, Humberto relutou. Teve medo do parto, do filho; confidenciou com a mulher: “As crianças são muito levadas. Dão um trabalho danado”. Mas o sogro foi firme; queria um neto de qualquer maneira. Incapaz de resistências prolongadas, Humberto concordou, afinal. Mas o fato é que a perspectiva do filho tirou o sossego do rapaz. Vivia atribulado com as possíveis doenças que o garoto pudesse ter. Gemia: “Imagine se ele apanha uma coqueluche braba”. Enfim, passaram-se os meses e chegou o grande dia. Apavorado, Humberto viu a mulher pôr a boca no mundo. O sogro berrou: “Vai buscar a parteira, que é pra já!”. Ele arremessou-se pelas escadas abaixo, à procura da profissional que morava duas quadras adiante. E não voltou, nunca mais.

O parto foi feito de qualquer maneira. Uma vizinha improvisou-se em parteira, enquanto a outra, a autêntica, não aparecia. E a criança nasceu perfeitíssima. Então começaram a procurar o pai. Foram à polícia, ao hospital, ao necrotério. Nada. A hipótese de fuga ou suicídio era absurda. Humberto vivera, em casa, como um paxá. Um mês depois, já não havia mais dúvida: estava morto. Não se sabia onde, mas era óbvio. E então, a viúva, no seu luto fechado, começou a fazer questão do cadáver. Exigia, em brados medonhos:
— Quero o corpo! Quero o corpo!
Havia um rio próximo. Supôs-se que o rapaz se tivesse afogado. E, no mínimo, as águas o levaram para longe. Elisa teve que se conformar; mas ficou, na sua alma, o ressentimento de viúva espoliada no seu defunto. E os anos, sem que ela percebesse, foram passando, um a um. Doze anos depois, consentiu, enfim, em ir, pela primeira vez, a um circo, que estava de passagem.
Foram os dois: ela, de luto, e o filho, com doze anos. Assistiam ao espetáculo quando, de repente, a bateria da charanga cria a ilusão do perigo, do abismo. Era um número mundial de equilibrismo. Um homem surge no arame, de sombrinha aberta. Elisa crispa-se na cadeira. Não é possível, não pode ser... Sopra, afinal, ao ouvido do filho:
— Teu pai... Teu pai...
Rompe, no circo, o grito da criança:
— Papai! Papai!
O equilibrista estaca; olha, apavorado. Larga a sombrinha, larga tudo, desaba lá de cima. Depois, no hospital, houve cenas delirantes. Humberto estava de perna engessada e suspensa. Quis saber se o filho já tivera coqueluche. Quando informaram que sim, gemeu:
— Ótimo... Ótimo...
Fizeram espetacularmente as pazes.
Mas nunca se soube por que desaparecera, naquela noite, doze anos atrás

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