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José Lino Souza Barros

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Os olhos

?Namoravam-se há três ou quatro dias

09/01/2017 às 12:43

OUÇA A CRÔNICA NA VOZ DE JOSÉ LINO

de Nelson Rodrigues

Namoravam-se há três ou quatro dias. Caminhando, lado a lado com o rapaz, na Praça da Bandeira, Judith ia dizendo:

— Olha, Alexis, eu quero te avisar um negócio: topo tudo, tudo, menos traição, compreendestes?

— Compreendi.

E ela, cordial, mas irredutível:

— Pois é. Sou muito boa, tal e coisa, mas homem nenhum faz de mim gato e sapato.

Alexis ouviu, gravemente. Quando a garota acabou, ele tomou a palavra:

— Meu anjo, eu sou o homem que não trai. E acho o seguinte: há uma coisa essencial em amor, insubstituível, que é a confiança: tem que haver lealdade ou, então, o amor vira mafuá, galinheiro.

Pausa. Os dois se olham. E Judith sentiu que, naquele momento, estava provada e selada a comunhão de duas almas e destinos. Os dois saem de braços. Adiante, Alexis dá-lhe um tremendo beijo na boca.

Ele era o que se pode chamar de sedutor nato. Os eternos descontentes achavam-no meio cafajeste nas suas maneiras espalhafatosas. Mas as mulheres, que são a autoridade máxima, perseguiam o Alexis, dia e noite. Muito vivo, preparou o espírito de Judith: “Mas eu não dou bola.” Pigarreia e acrescenta: “Basta dizer o seguinte: não atendo telefonema de mulher. Só estou pra ti.” Judith saiu dali e foi contar, em casa: “Dizem que não há homem fiel. Mas achei um que é.” Perguntaram: “Tem certeza?” Foi categórica: “Ponho a minha mão no fogo.” E continuou o romance. Como era fatal, aconteceu o seguinte: afetiva, sentimental da cabeça aos sapatos, o amor de Judith parecia aumentar, de 15 em 15 minutos, e já admitia para as amigas:

— Eu não poderia viver sem Alexis. E te juro: nunca pensei que se pudesse gostar tanto de um homem.

Felizmente para seus ciúmes, que eram muitos, Alexis era, a seu lado, de uma correção inseparável. Jamais lhe surpreendera um olhar equívoco, um sorriso suspeito.

Um dia, estava em casa, quando batem na porta. Atende. Era uma moça que ela não conhecia, e que pergunta:

— A senhorita é que é Judith?

— Pois não. Judith, sim.

E a outra:

— Eu queria falar com a senhorita, em particular. Dá licença?

— Tenha a bondade.

Um clarividente instinto fez o coração de Judith bater mais depressa. A mulher entra, senta-se e identifica-se:

— Eu sou a esposa de Alexis.

— Como?

A visitante repete: “Sou a esposa de Alexis. Do seu namorado, sim.” E, sem hesitação, com um abominável tom informativo, retifica:

— Quer dizer, a esposa verdadeira. Ele tem mais duas, de araque. E todas, inclusive eu, com filhos.

Balbuciou:

— Filhos?

E a outra:

— Filhos, sim. Perfeitamente: filhos. Eu conheço as outras esposas e me conformo com elas, assim como elas se conformam comigo. Mas a quarta não admitiremos, nunca, ouviu? Portanto, você está avisada e sabe como agir. Passar bem.

Responde, quase sem voz:

— Passar bem.

Mas era apenas o começo. Enquanto ela chorava, de bruços na cama, todas as suas lágrimas de mulher, o telefone não parava. Eram vozes femininas dizendo: “Aqui é a segunda esposa do Alexis.” Ou a “terceira”. Perguntavam: “Essa Judith não tem vergonha de namorar um homem casado?” Ou então vinha uma série de obscenidades inenarráveis. A família já estava em pânico.

Cercada de mãe, irmãs e criada, Judith soluçava: “Ah, canalha! Por que é que esse desgraçado não morre?” Todos, ali, só pensavam na reação do pai, que era um exaltado, um genioso. Súbito, Judith levanta-se: “Ele vai ter que explicar tudo direitinho, o cachorro!” Bate o telefone para o namorado. Alexis estranha a voz: “Estás resfriada, meu anjo?” Ela foi sumária:

— Apanha um táxi e vem para cá, chispando!

Dez minutos depois, aparecia Alexis, escabreado. Judith fez sair todo o mundo. A conversa que, então, tiveram foi dantesca.

Ela começou: “Esteve aqui uma senhora nessas e nessas condições. Disse isso assim, assim.” Alexis recuou, estupefato: “Não é possível, não pode ser.” Andava de um lado para outro, descontrolado:

— Mas isso é calúnia! Uma chantagem!

Dizia isso, protestava uma inocência frenética, mas eis a verdade: não olhava, de frente, a namorada. Súbito, Judith, com uma energia insuspeitada e viril, agarra-o pelos dois braços:

— Responde, olhando para mim: é verdade ou mentira?

Ele ia negar ainda. Mas diante do apelo daquele olhar, explodiu, num soluço imenso:

— É verdade, sim, é verdade! Sou um canalha! Mas te juro e Deus é testemunha! Pela primeira vez conheço o amor! Te amo, te amo e te amo!

Judith aperta a cabeça entre as mãos: “Três esposas e eu seria a quarta.” Fora de si, o rapaz oferece o rosto: “Cospe na minha cara, cospe!” Ela ia talvez esbofeteá-lo, mas aquele homem chorando a comoveu. Agarrou-se a ele:

— Olha: tu és um canalha, mas eu gosto de ti assim mesmo, hei de te amar sempre!

Houve, entre os dois, uma cena delirante. Misturaram as bocas num beijo selvagem. Depois, mais calma, ela diria:

— Haja o que houver, sou tua, serei tua! As outras que se danem!

Depois que ele saiu, Judith, mais enamorada e mais infeliz do que nunca, reuniu a família toda, exceção do pai, e disse: “O negócio é o seguinte: Alexis confessou, e quem confessa merece perdão.” Houve um estupor geral: “Quer dizer que é verdade o negócio das três esposas?” Ela acabou se exaltando:

— Tudo isto pertence ao passado. No momento, só gosta de mim.

A irmã caçula lança a pergunta: “E vocês vão se casar?”

— Casamos no Uruguai, no México, sei lá.

Nos seus olhos, havia um lampejo de fanática. O diabo foi quando o pai chegou, mais tarde. A princípio, falou, até, em dar tiros. Mas a filha o enfrentou: “Em último caso, eu fujo daqui!” Ora, o velho adorava aquela filha. Se conformou:

— Seja o que Deus quiser!

Uma coisa ficou cutucando o espírito da própria Judith e do resto da família: o abandono das três esposas e respectivos filhos. E, sobretudo, as crianças constituíam um problema desagradabilíssimo. A mãe de Judith teve um comentário irritado e prático: “Por que não evitaram, ora bolas!” Pois bem: dias depois, apareceram, na porta, as três esposas. O pavor de Judith levou-a a recebê-las na saleta.

As visitantes perguntaram: “Você não desiste?” Respondeu: “Não.” Antes que Judith pudesse adivinhar-lhes as intenções, duas delas agarraram a pequena, enquanto a terceira destampava um vidrinho e atirava-lhe ao rosto o conteúdo. Com os olhos queimados por um ácido, Judith enchia a casa de gritos:

— Estou cega! Cega!

E, de fato, dias depois, quando tiraram as gases do curativo, seus olhos estavam espantosamente brancos.

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