José Lino Souza Barros

Coluna do José Lino Souza Barros

Veja todas as colunas

Ódio de mulher

De Nelson Rodrigues

14/12/2019 às 11:21
Ouça na Íntegra
00:00 00:00

Era uma menina alegre, louca por crianças. Na rua onde morava, dava-se com Deus e todo mundo. Com um gênio assim, jamais inspirara um ódio ou, mesmo, uma simples, uma trivial antipatia. Diziam dela: "Tem gênio adorável." As mais velhas suspiravam:
— Benza-a, Deus!
Ao que Abigail, replicava:
— Amém.
E, assim, fez seus 18 anos e estava uma bonita moça, de chamar a atenção no meio da rua. A única restrição que seu feitio comportava era ser namoradeira. Nas festas, não fazia segredo nenhum de seu telefone, nome, endereço e mais, informações que seus pares eventuais solicitassem. Chamava seus flertes, namorados, de "amiguinhos". Se perguntavam:
— Fulano é seu namorado?
Retificava, com naturalidade:
— Amiguinho.

A vizinha

Até que veio morar, na mesma rua, D. Aurora, casada com Seu Durval. Abigail doida por novidades, obedeceu à sua natural tendência: aproximou--se no mesmo dia da outra. E não fez a menor cerimônia. Apresentou-se com a ressalva:
— Entre vizinhos não deve haver cerimônia.
Seu Durval, que estava numa mistura de calça de social e paletó de pijama, foi quem a atendeu. D. Aurora, cansada da arrumação, enfiara-se no banheiro e tornava um banho frio. Ouvia-se o barulho da água, do lado de fora. Então, Seu Durval, ainda moço, encostou o jornal no fundo, impressionado com essa moça despachada que lhe invadia a casa, sem maiores escrúpulos. Como a mulher se demorasse no banheiro, os dois conversaram. Por fim, Abigail achou que já podia ir embora:
— Querendo alguma coisa, já sabe.
— Ah, pois não! Com muito prazer. E aqui também às ordens.
Nesse momento, D. Aurora, sem saber da existência de uma visita, saía do banheiro de roupão e chinelos. E foi assim que foi encontrar na sala já de saída aquela desconhecida. Houve um espanto recíproco e uma situação que tinha o seu pitoresco e o seu ridículo. A dona da casa ainda quis recuar, mas era tarde demais. E Seu Durval, entre divertido e contrafeito, fez a apresentação:
— Minha esposa.
As duas foram simultâneas.
— Muito prazer.
E já Abigail, adaptável a todas as situações, parecia à vontade, ofereceu-se, de novo, para cooperar em qualquer coisa que fosse preciso. D. Aurora, com o rosto vermelho, dissimulando mal sua irritação, pediu licença e entrou no quarto. Quando o marido, depois de ter acompanhado a vizinha até a porta, voltou, encontrou a mulher furiosa. Assim que apareceu, ela fez a pergunta:
— Quem é essa zinha?
— Mora defronte.
D. Aurora soltava os cabelos e ainda não se conformara com a invasão de sua casa.
Sua irritação aumentou, porque o marido, esfregando as mãos, fez uma reflexão de boa-fé infinita:
— Simpática.

O ressentimento

D. Aurora não tardou a fazer amizade com todos os vizinhos. Em coisa de uma semana, estava na casa de um, de outro, discutindo com as respectivas donas de casa problemas de modas e bordados, receita de doces, programas de rádio, educação de crianças etc., etc. Fez, porém, uma exceção que, afinal de contas, não se justificava: e esta exceção foi, justamente, — quem? Abigail. E foi uma coisa que não comportava duas interpretações. Se as duas se encontravam no meio da rua, D. Aurora chegava ao cúmulo, vejam bem, ao cúmulo de virar o rosto, de fingir que não via. A princípio, Abigail, na sua ilimitada boa-fé, desculpou-a, pensando: "Vai ver que não me viu mesmo." Mas na vez seguinte, aconteceu o mesmo. Abigail, quando chegou em casa, vinha preocupada, fez espanto:
— Que coisa engraçada!
— O quê?
— D. Aurora passou por mim e fingiu que não me via.
Protestaram:
— Com certeza foi distração.
E ela:
— No mínimo.
Já não tinha dúvidas, porém. Sem o menor motivo, o fato é que D. Aurora não gostava dela e se recusara a cumprimentá-la. Quebrou a cabeça pesquisando as causas próximas e remotas daquele desafeto. E, de propósito, numa verdadeira sede de verificação, criou outras oportunidades e só faltou mesmo agarrar a dona no meio da rua e fazer a pergunta: "Não me cumprimenta por quê? Que foi que eu lhe fiz?" E, daí por diante, sempre que Abigail aparecesse num lugar onde estivesse D. Aurora, era patente, visível a olho nu, que havia qualquer coisa entre as duas, fosse o que fosse. D. Aurora mudava como da noite para o dia. Não abria mais o bico: amarrava uma tromba de assustar. Na primeira oportunidade, cutucava o marido:
— Vamos? — Virava para os demais e se desculpava
— Amanhã eu tenho que acordar cedo para ir à feira.
Abigail tinha, diante de si, dois caminhos: ou não ligar, ou ficar furiosa. A verdade é que ficou furiosa. Dizia a todo mundo: "Mas que mal eu fiz a essa criatura? Sempre a tratei muito bem, até bem demais!" Foi quando soube que D. Aurora iniciara uma campanha contra ela e a considerava "assanhada", "sem modos", "sem educação". Mesmo assim, Abigail queria fazer graça. E dizia: "O meu santo não vai com o dela, paciência!" Surgia, ainda, uma versão espírita segundo a qual as duas, em encarnações passadas, tinham sido inimigas. Abigail ficou pensativa: "Quem sabe?"

O marido de D. Aurora

Mas se D. Aurora a tratava da maneira que se sabe, Seu Durval, educadíssimo, a cumprimentava da maneira mais efusiva. Se coincidia de viajarem no mesmo ônibus, era tiro e queda: ele fazia questão de pagar a passagem da menina. Durante toda a viagem, conversavam, numa animação que poderia
dar margem à suspeitas e deduções sem o menor fundamento. Até que uma coleguinha de Abigail, sabidíssima, teve uma intuição luminosa:
— Descobri!
— O quê?
— Descobri por que D. Aurora não vai com tua cara. É porque tem ciúmes de você com o marido.
Abigail recebeu um choque, ficou na dúvida, mas a outra teimou, convicta: - Tenho certeza.
Abigail foi para casa e aquilo não lhe saía da cabeça. No quarto, diante do espelho, revirando-se, evoluindo como um modelo profissional, confirmava para si mesma: "É isso. Isso mesmo!" Foi nessa altura dos acontecimentos que ela soube que a outra, em conversas íntimas com algumas vizinhas, queixara-se da sua incapacidade de ser mãe. Fizera tratamento, o diabo, mas nada. O médico a desiludira, definitivamente: "É bobagem, D. Aurora. Nem adianta insistir. A senhora não pode ser mãe." Marido e mulher sabiam disso e esta era a amargura que existia no fundo, bem no fundo de suas vidas. E aconteceu que, viajando de ônibus com Abigail, Seu Durval mencionou o fato. Foi mais longe, admitindo que a impossibilidade de um filho era uma tragédia na sua vida. Abigail, de lado, pensativa, só dizia:
— Imagino! Imagino!
Mas, no fim, ela o surpreendeu com uma insinuação misteriosa e perturbadora:
— Quem sabe se Deus não lhe dará um filho? Tudo é possível, Seu Durval!

O filho

Desde então, Abigail, com uma crueldade que não podia controlar, comentava para todo mundo: "Tem complexo porque não pode ter filhos." Quando passava por D. Aurora, tinha um meio sorriso, que a outra, de queixo empinado, não podia ver. A rua, toda, acompanhava a guerra daquelas duas mulheres e estranhava aquele ódio sem motivo e, apesar disso, feroz. Abigail que sempre fora namoradeira, adquirira outros modos: não ria mais alto, não flertava com mais ninguém e endurecia o rosto diante dos galanteios anônimos da rua. Até que, um dia, andou sentindo uma coisa e foi ao médico. Do consultório, foi, direto, à casa de D. Aurora. E quando a outra abriu, Abigail disse apenas isto:
— Venho do médico. Vou ter o filho que você não terá nunca.
De noite, D. Aurora pediu explicações ao marido. O certo é que, no dia seguinte, pela manhã, ela foi embora e partiu para a casa dos pais.

Escreva seu comentário

Preencha seus dados

ou

    #ItatiaiaNasRedes

    RadioItatiaia

    Campeonato Mineiro Coimbra x América

    Acessar Link

    RadioItatiaia

    ⚽Boliviano irá desembarcar em Belo Horizonte nesta terça-feira, às 11h30

    Acessar Link