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José Lino Souza Barros

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A inocente

A inocente 

15/04/2017 às 12:14

Ouça a narração da crônica na voz de José Lino 

Sempre enxergara otimamente. Dizia mesmo:
— Graças a Deus, tenho uma vista fantástica! A namorada fazia insinuação:
— Você, meu filho, enxerga até demais!
Riam os dois. A menina o acusava de ver maldade onde não havia tal. Num ciúme danado de tudo e de todos, Fonseca fazia toda sorte de reclamações.
— Pensa que eu não vi, hein? E ela:
— Mas viu o quê, filho de Deus?
— Você olhando para aquele cara!
— Ah, que blasfêmia! Olha, Fonseca, olha que Deus castiga!
Um dia, ele começou a ter uma série de perturbações visuais. Eram pequenos pontos na visão que, com o correr dos dias, se multiplicavam. Assustou-se. E vamos e venhamos: quem não tem medo de ficar cego? Correu para o oftalmologista. Escolheu um bem caro, na prevenção de que a tabela alta lhe significasse uma esmagadora eficiência clínica. O homem o submeteu a um milhão de exames.
No fim de tudo, chegou a uma conclusão inesperada:
— Vamos tirar os dentes!
— Todos?
Em quatro ou três sessões, ficou com a boca vazia; uma boca de velha. E o pior ainda não foi isso: o pior é que não havia um só foco dentário, um único granuloma, nada. Ficou furioso: disse horrores e foi 
em cima do especialista. Com a mão na frente, escondendo publicamente os beiços murchos, concluiu:
— Fizeram comigo um papel sujíssimo.

Não apareceu mais para a namorada. Ela mandava recados, verdadeiros S.O.S., mas Fonseca foi irredutível. Desenvolveu-se, nele, uma altivez, uma dignidade, um pudor de desdentado. A mão estava sempre na frente, servindo de folha de parreira. Aprendeu a difícil arte de não sorrir, em hipótese nenhuma. Ninguém mais triste, ninguém mais fúnebre. Subjugado pelo complexo de desdentado, não olhava para as mulheres. Ia de casa ao trabalho e vice-versa, numa vergonha que já era doença. Que poderia mesmo transformar-se em loucura. Reclamavam:
— Toma jeito, rapaz! Sossega!
Ele, porém, sem nada dizer, tramava a própria salvação. Recorreu a um dentista, sempre na base de que “o mais caro é o melhor”. Quando soube que o dr. fulano cobrava seiscentos reais a hora, esfregou as mãos de contente. E fez o comentário:
— Esse é dos meus!
Lá compareceu, no sonho de uma dentadura dupla. Fizeram um orçamento principesco: doze mil! Segundo seus cálculos, uma dentadura de doze mil seria a mais cara da cidade. Calculava: “Vou ficar com uma boca de anjo!”. O dentista chamou um protético, tiraram os moldes, e Fonseca, na cadeira do dentista, pedia uma dentadura genial, que fosse uma obra de arte, para já. Ponderaram:
— Não pode ser assim, não, que diabo!
— Ué!
— Claro! Primeiro tem que deixar as gengivas murcharem. Depois, então, é que tiraremos o molde.

No dia que saiu do consultório com o aparelho, parecia ter um ovo na boca. Gemia: 
— Como dói esse troço!
Fora, porém, divertido. O dentista explicara que nos primeiros dias era assim mesmo. De qualquer maneira, e embora com o céu da boca em petição de miséria, andou pela cidade com outra aparência. Olhava de cima os demais, como se viajasse num andor. Essa sensação de andor não o abandonou mais. Ainda não podia falar direito, mas usou o sorriso de maneira abundante. Uma moça que, aliás, ia acompanhada, talvez pelo marido, retribuiu o seu olhar. Ele voltou para casa com uma certa pena, e fazendo a seguinte reflexão: “Ah, se não estivesse acompanhada!”. Teve que mostrar à família os dentes novos. Mandavam:
— Ri!
Ele ostentava, deleitado, a superabundância de dentes. Numa última dúvida, fez uma enquete com o pessoal:
— Está parecendo postiço, está?
Houve uma unanimidade feroz. Todos afirmavam que não, que não pareciam absolutamente postiços. 

Mudou por completo. Era outra pessoa, seja física ou psicologicamente. Ria de tudo, ria por coisa nenhuma. Às vezes, diante de uma piada boba ou idiota, fazia um escândalo:
— Essa é a maior! Essa é a maior!
Queria um pretexto para o riso escancarado.
E se antes, fugia das mulheres, não as olhava, agora, em função dos dentes novos, não podia ver uma garota: ou dava em cima ou dizia que dava em cima. Não importava muito o namoro, a conquista. O que interessava realmente era a possibilidade de surgir como um galã irresistível ante os conhecidos. 
Soprava para um, para outro:
— Viste aquela?
— Vi.
— Que tal? E o amigo:
— Um espetáculo! Ele suspirava:
— Não me dá uma folga. O dia todo. Assim não é possível. 
Fazia questão, sobretudo, das sérias, das inatacáveis e, em especial, das casadas. Contava episódios arrepiantes em meio da admiração geral. Alguém argumentava:
— Mas não é possível, não pode ser!
— Por quê, ora essa? E o outro:
— Porque eu conheço aquela senhora, é honestíssima. Doida pelo marido!
Fonseca recostava-se na cadeira: atirava, no meio dos parvos, a sua teoria predileta:
— A mulher é séria até o momento em que deixa de ser!

Na rua onde ele morava, veio residir Branca, casadinha de fresco. Era doce, linda e tudo o mais que se possa atribuir a uma jovem em lua-de-mel. Com cinco dias de casados, ela e o marido quase não saíam. Uma vez ou outra, quando o esposo não estava em casa, Branca surgia um momento na janela. Numa dessas vezes, coincidiu que Fonseca passasse. De noite, na esquina, ele exclamava:
— É o cúmulo!
— O quê?
Parecia realmente enjoado:
— Eu não diria nada se, enfim, tivesse mais tempo de casada... Mas não fez nem quinze dias e quando acaba... 
Contou, para o auditório embevecido, a história abominável:
— Só vocês vendo a bola, que ela me deu! Uma Pouca- vergonha! Por isto é que não me caso; porque não sou besta!
Durante seis meses não fez outra coisa. Deixou mesmo de se interessar pelas outras mulheres. Era como se só existisse a pobre da Branca na face da Terra. Cada noite trazia uma novidade e concluía sempre com um comentário:
— Não se pode confiar em mulher nenhuma! É tudo a mesma coisa!
Seu maior êxito, porém, foi quando exibiu, para a roda de amigos desocupados, o lenço sujo de batom. Lambia os beiços, o miserável; chamava os amigos para ver e sondava:
— Vê se o batom já saiu, vê!
Os outros, em brasas, queriam saber:
— Mas que foi? Que foi?
Ele, teatral, revelou, baixando a voz e olhando para os lados, que dera um beijo tremendo na infeliz mulher. Queriam detalhes, perguntavam que tal etc. E ele, já num princípio de tédio, de fastio daqueles lábios de mulher:
— Mais ou menos.

Por pura coincidência ou castigo sobrenatural, eis o que ninguém saberá jamais. O certo é que a notícia correu: “Fonseca está com câncer na língua!”. Foi a tudo quanto era médico, mas não evitou a operação. Um dia, o marido de Branca invadiu o quarto do moribundo. Recebera uma carta anônima e, dentro do envelope de ofício, um lenço sujo de batom. Fora de si, queria saber se era verdade ou se... Fonseca estava de novo sem os dentes, a boca de velho. O marido perguntava: “É verdade? Diga! É verdade?”.
Sem língua, não podia falar. Pediu um lápis; já no limite entre a vida e a morte, escreveu:
— É verdade.
Estava morrendo sem dentes e sem língua. O marido partiu. A esposa estranhou que ele chegasse cedo e ia fazer uma observação qualquer, mas o pobre-diabo interrompeu:
— Teu amante confessou.
Branca quis gritar, fugir, mas nem uma coisa, nem outra. Imóvel e muda, recebeu quatro tiros. Seu medo se extinguiu na morte.

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