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Petista, tucano ou anarquista?

Quem trabalha com comunicação não pode sofrer com rótulos; afinal cada um pensa do jeito que quiser e – sabemos – muitos costumam...

08/11/2016 às 04:20

Quem trabalha com comunicação não pode sofrer com rótulos; afinal, cada um pensa do jeito que quiser e – sabemos – muitos costumam nos analisar a partir de suas fraquezas. Não há almoço grátis nem sucesso sem preço. Daí, quando os petistas me chamam de tucano e estes me colorem de vermelho, concluo que existo e isto me deixa muito feliz na profissão. Como vivo tempos de contemplação da diversidade e exercício da paciência, quero revelar minhas tendências ideológicas. Antes, um alerta: não tomem tudo que disser como dogmas ou verdades absolutas ou definitivas. Sou discípulo de Heráclito, que 2.500 anos atrás, escreveu: “Nada existe em caráter permanente a não ser a mudança”. Não sou poste, logo, posso e devo mudar. É só me convencer. E não sou irredutível, escuto.

Sou de esquerda ou direita?

Você sabe a origem, por que as pessoas são rotuladas de esquerda ou direita?

Com a Assembleia Nacional Constituinte montada para criar a nova constituição francesa, no século 18, as camadas mais ricas não gostaram da participação das mais pobres, e preferiram não se misturar, sentando separadas, do lado direito. Por isso, o lado esquerdo foi associado à luta pelos direitos dos trabalhadores e o direito ao conservadorismo e à elite. Dentro dessa visão, ser de esquerda presumiria lutar pelos direitos dos trabalhadores e da população mais pobre, a promoção do bem estar coletivo e da participação popular dos movimentos sociais e minorias. Já a direita representaria uma visão mais conservadora, ligada a um comportamento tradicional, que busca manter o poder da elite e promover o bem estar individual. Com o tempo, as duas expressões passaram a ser usadas em outros contextos. Hoje, por exemplo, os partidários que se colocam contra as ações do regime vigente (oposição) seriam entendidos como “de esquerda” e os defensores do governo em vigência (situação) seriam a ala “de direita”.

Na verdade, prefiro a definição de Norberto Bobbio pela simplicidade: “Se você está feliz com o que está aí, é conservador, de direita; caso contrário, de esquerda”.

Então, sou de esquerda.

Ocorre que a definição do anarquismo me seduz: ideologia política que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação política, econômica, social e cultural, incluindo o Estado, o capitalismo, as instituições religiosas, o racismo e o patriarcado. Por meio de uma análise crítica da dominação, o anarquismo pretende superar a ordem social na qual esta se faz presente, por meio de um projeto construtivo baseado na defesa da autogestão, tendo em vista a constituição de uma sociedade libertária baseada na cooperação e na ajuda mútua entre os indivíduos e na qual estes possam associar-se livremente.

Bom, não sei bem se sou de esquerda ou anarquista, mas, no fundo do meu coração, com certeza não sou um conservador, não me conformo com as coisas do jeito que estão. Podem dizer que sou socialista, porém, por favor, comunista não… É que a ideologia pode ser tentadora, mas a experiência no leste europeu foi devastadora – e repito o que ouvi deles, em Praga, Viena, Budapeste…

Para mim, o simples fato de Donald Trump ter chances de vencer as eleições nos Estados Unidos – combinado com o resultado daquele plebiscito na Inglaterra e a forma como somos tratados em Madri - já nos avisa que o mundo está cada vez mais intolerante, racista e indiferente ao sofrimento alheio, à pobreza.

Então, chegamos ao ponto de parar com a viagem e responder, para delírio dos que gostam de nos rotular: petista ou tucano?

Sou do partido de Patrus, André, Apolo, Sandra, Heloisa, Marina e outros amigos menos famosos como Tadeu, Tião, Elisângela e Helena, que sonharam com um mundo mais justo. Todos estes são ou foram petistas um dia. Mas nunca consegui me juntar a eles, debaixo da bandeira vermelha. Primeiro, os petistas passaram 30 anos acusando, patrulhando, condenando quem não pensava como eles; depois, no poder (a minoria, do mal, que manobrou e assumiu o controle), com a faca e o queijo na mão, optaram pela roubalheira, a safadeza ou, resumindo, se aliaram a PMDB e outras siglas de Collor, Sarney, Renan e companhia. O PT é imperdoável porque fez tudo igual. E quem duvida é só esperar pela manobra de Rogério Correia e Durval Ângelo para livrar Pimentel do processo em Brasília (atenção: não estou condenando o governador, só queixo que não deixarão o processo andar).

Mas, embora admire algumas pessoas do outro lado, como Anastasia, não consigo tucanar nem morto. O que não quer dizer que, sem escolha, possa, eventualmente, votar em algum tucano, considerando que nunca voto nulo ou branco; sempre escolho o melhor, o menor estrago ou para evitar tragédia.

Na troca de Dilma por Temer, minhas opiniões no rádio levaram muitos a me rotular de petista. Na verdade, discordava da forma (não da necessidade) como ela saiu e chorava a volta do atraso que Temer e sua turma representam para a pobreza (veja bem, não estou dizendo que não era necessário mudar, o país estava acabando); na verdade, fiquei ainda mais decepcionado com o PT pelo fato de Zé Dirceu e seus 40 companheiros terem jogado no lixo a chance de dar vez e voz aos humildes. A maior chance em 516 anos de Brasil.

A turma do Temer é a certeza de que continuaremos uma pátria cordial, desde que cada um esteja no seu lugar. Para não cansar, encerro pedindo a todos que leiam com atenção esse texto de Leonardo Sakamoto, publicado recentemente no site UOL e que ajuda a explicar minhas angústias:

Se a equipe responsável por desenhar a Reforma da Previdência confirmar que o governo federal deve propor a possibilidade de cobrança de contribuição ao INSS de todos os aposentados, teremos algumas comprovações – isso, é claro, se ainda restar um país depois dos protestos causados pela aprovação dessa medida.

Primeiro, ficará comprovado que o governo Michel Temer acha que desiguais, ricos e pobres, devem ser tratados de forma desigual. Não como deveria ser, com os trabalhadores sendo mais protegidos pelo Estado por sua condição de vulnerabilidade econômica e social. Mas com as pessoas que dependem do INSS mensalmente para sobreviver, ou seja, a camada mais pobre da sociedade, tendo que voltar a contribuir com a Previdência para ajudar nas contas do país.

Enquanto isso, o governo evita discutir a taxação de dividendos recebidos de empresas (como acontecia antigamente e como é feito em todo o mundo), a fazer uma alteração decente na tabela do Imposto de Renda (criando novas alíquotas para cobrar mais de quem ganha muito e isentando a maior parte da classe média), a regulamentar um imposto sobre grandes fortunas e aumentar a taxação de grandes heranças (seguindo o modelo norte-americano ou europeu).

Isso poderia ajudar o caixa da Previdência e serviria como política de redistribuição ao mesmo tempo, o que é sempre bem vindo em um país concentrador de riqueza como o Brasil. Mostraria também que somos uma democracia de verdade, com o chicote estalando no lombo de ricos e pobres.

Segundo, mostrará que o governo utiliza-se de malabarismos semânticos e lógicos para tentar justificar o injustificável. Segundo os estudos em curso, trazidos à tona em matéria da Folha de S.Paulo deste sábado (29), o trabalhador que recebe bruto um salário mínimo quando está na ativa sofre o desconto do INSS. Então, pela lógica da equipe de Temer, ele deveria ser continuar sendo descontados e receber o mesmo valor quando aposentado e não o valor cheio.

Não importa que os gastos extras com saúde de uma pessoa idosa sejam maiores que de uma pessoa jovem e saudável. Não importa que a pessoa não receba mais FGTS ou tenha acesso a benefícios dos trabalhadores da ativa. O que importa é o cálculo nominal, frio e desumanizado. O valor de R$ 70,40 pode não representar nada para governantes e magistrados que discutem hoje a redução de direitos. Mas para quem recebe uma merreca de aposentadoria de R$ 880,00 pode ser a diferença em ter dignidade ou não.

Por fim, o governo Michel Temer, com esses estudos e balões de ensaio, segue mostrando que acha que o Brasil é um grande escritório com ar condicionado.

Um dos objetivos da Reforma da Previdência é manter os trabalhadores no mercado de trabalho. Usa para isso a justificativa que a expectativa de vida aumentou, a população mais jovem diminuiu e é necessário alterar as leis para garantir que aposentadorias continuem sendo pagas – o que não discordo de uma maneira geral.

Para isso, querem uma idade mínima de 65 anos para a aposentadoria. Aí reside o problema. Normalmente quem defende a imposição dessa idade somos nós, jornalistas, cientistas sociais, economistas, administradores públicos e privados, advogados, políticos. Pessoas que não costumam carregar sacos de cimento nas costas durante toda uma jornada de trabalho, cortar mais de 12 toneladas de cana de açúcar diariamente, queimar-se ao produzir carradas de carvão vegetal para abastecer siderúrgicas e limpar pastos ou colher frutas sob um sol escaldante. Afinal de contas, o que são 65 anos para nós, que trabalhamos em atividades que nos exigem muito mais intelectualmente?

Diante da incapacidade de se colocar no lugar do outro, do trabalhador e da trabalhadora que dependem de sua força física para ganhar o pão, no campo e na cidade, esquecemos que seus corpos se degradam a uma velocidade muito maior que a dos nossos. E a menos que tenham tirado a sorte grande na loteria da genética, eles tendem a ter uma vida mais curta (e sofrida) que a nossa. Aos 14 anos, muitos deles já estavam na luta e nem sempre apenas como aprendizes, como manda a lei. Às vezes, começaram no batente até antes, aos 12, dez ou menos.

O ideal seria, antes de fazer uma Reforma da Previdência Social, garantirmos a qualidade do trabalho, melhorando o salário e a formação de quem vende sua força física, proporcionando a eles e elas qualidade de vida – seja através do desenvolvimento da tecnologia, seja através da adoção de limites mais rigorosos para a exploração do trabalho. O que tende a aumentar, é claro, a produtividade.

Mas como isso está longe de acontecer, o governo deveria estar discutindo o estabelecimento de um regime diferenciado para determinadas categorias nessa reforma para proteger os trabalhadores que se esfolam fisicamente durante sua vida economicamente útil. O que não seria algo simples, claro, pois em algumas delas os profissionais são levados aos limites e aposentados não por danos físicos, mas psicológicos, chegando aos 60 sem condições de desfrutar o merecido descanso.

É claro que o Brasil precisa alterar os parâmetros de sua Previdência Social e mesmo atualizar a CLT. O país está mais velho e isso deve ser levado em consideração para os que, agora, ingresso no mercado de trabalho. Mas a reforma da Previdência que vem sendo desenhada por Michel Temer sob a benção de Henrique Meirelles ignora que há milhões de trabalhadores que começaram cedo na labuta e, exauridos de força, mal estão chegando vivos a essa idade.

Portanto, é um caso de delinquência política e social que vem sendo aplaudido por setores e grupos para os quais R$ 70,40 significa apenas o preço da caipiroska no almoço de sábado.

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