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Cantina do Lucas

Não estou entre seus frequentadores mais assíduos; no entanto, sei o bastante para avaliar a importância das lojas 18 e 19 do piso térreo do Edifício Maleta.

16/01/2013 às 08:22
Cantina do Lucas

Sou daqueles que acreditam na necessidade de viver o presente e olhar para o futuro, conhecendo e respeitando o passado. Incomoda-me profundamente o fato de Belo Horizonte ser uma cidade em permanente mutação, ou seja, é raro você ver uma casa construída há mais de 50 anos e a nossa especulação imobiliária já inclui a compra de prédios antigos, de até cinco andares, para a substituição por espigões. Além de tratar bem os seus habitantes e reverenciar seus heróis, uma cidade deve conservar bens públicos e privados que marcam uma época e isso inclui estabelecimentos comerciais, que devem ter incentivos oficiais para que as futuras gerações possam conhecê-las. Destacaria aqui como exemplos do que é especial nesta cidade o conjuntos de lojas do Mercado Central e da Galeria Ouvidor além de algumas casas destinadas à histórica da boemia, caso da Cantina do Lucas, que está completando 50 anos.

Não estou entre seus frequentadores mais assíduos; no entanto, sei o bastante para avaliar a importância das lojas 18 e 19 do piso térreo do Edifício Maleta. O restaurante foi inaugurado em 1962, com o nome de Chopplândia; depois virou Trattoria di Saatore e, desde 3 de outubro de 1966 é a Cantina do Lucas que, de imediato, tornou-se um espaço de reunião dos que se sentiam atordoados naqueles tempos de ditaduras na América Latina, quando partidos políticos ou sindicatos pouco valiam e era no bar que as pessoas se encontram para conversar, rir e sonhar. Então, cineastas, escritores, poetas, políticos, artistas, advogados e estudantes formavam uma confraria coesa, cujo elo condutor de conversas sempre foi a contestação e a criatividade, segundo relato de Brenda Silveira e Luiz Otávio Horta, que acrescentam:

“A efervescência cultural da época fez da Cantina o anfiteatro das grandes discussões em torno da música (de Tom Jobim aos Stones), do cinema novo de Glauber à Nouvelle Vague de Godard, da arquitetura de Niemeyer, do existencialismo de Sartre, da literatura Beat americana, da Pop Art de Andy Warhol e David Hockney, passando pelo futebol de Pelé e Garrincha rumo ao bi e ao tri, ou, simplesmente, expondo as angústias, alegrias e tristezas do cotidiano de cada um”.

Enfim, a Cantina do Lucas, patrimônio cultural desde 1997, é, como define o Edmar Roque – que a administra desde 1983 – um restaurante que tem identidade própria, “não é a cara do dono”. Viva a “Cantina”!.

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