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Concorrência e bairrismo

Vários posicionam o Palmeiras numa dimensão completamente própria, distante da do Cruzeiro. Não é por aí...

19/01/2018 às 04:45

Com as movimentações realizadas até aqui no mercado, o elenco do Cruzeiro tornou-se ainda mais forte. Extremamente qualificado. Em função deste panorama animador, tenho recebido frequentemente perguntas do tipo: “dá para cravar que a Raposa conquistará grandes títulos na temporada”? Além da imprevisibilidade do futebol, do casamento eterno que este esporte mantém com o acaso, e de aspectos atrelados ao famoso encaixe do conjunto, é preciso considerar os concorrentes. Em todas as competições que enfrentarão os celestes estão – hoje, em termos teóricos, de potencial –, sim, na principal prateleira de favoritos; em patamar similar, contudo, encontram-se Palmeiras, Flamengo, Boca e River, entre alguns outros.

Falemos do badalado alviverde paulista. Roger Machado – assim como Tite e Mano – em geral prefere formar suas equipes escalando, em um dos lados, um meia armador, e no outro, um atacante agudo, vertical. Com a chegada de Gustavo Scarpa o treinador ex-Atlético poderá contemplar esta tendência em grande estilo: Felipe Melo primeiro volante; Moisés segundo homem; na linha de três meias Dudu pela esquerda, Lucas Lima centralizado, e Scarpa pela direita; na frente, Borja ou Willian.

Se no ano passado as laterais foram, para muitos, o calcanhar de Aquiles do Porco, as contratações de Diogo Barbosa e Marcos Rocha mostram-se respostas contundentes. E lembremos: na esquerda há ainda o retorno de Victor Luís, o que não apenas dá segurança no sentido de se ter por ali uma boa peça de reposição para as eventualidades de um calendário maçante como, taticamente, oferece uma alternativa bem diferente do titular; ao contrário de Barbosa, Victor prima pela firmeza na defesa, pelo poder de marcação, pela capacidade de compor a linha de quatro de maneira, digamos, mais pragmática. Raciocínio razoavelmente análogo pode ser aplicado, no caso da lateral direita, a Jean – a pecha de “improvisação”, aqui, não pega mais; Jean foi campeão como lateral direito titular em 2016; se não atuou como um porto seguro no ano passado foi basicamente por questões físicas.

Além dos nomes já citados o plantel montado por Alexandre Mattos – e pela “Leila Crefisa”, é claro – ainda possui prováveis reservas do calibre de Keno, Tchê Tchê, Bruno Henrique, Guerra, só para ficar entre os mais louvados.

Apesar de o grupo de atletas do Palmeiras, em sintonia com o raciocínio neste texto exposto, de fato merecer contundentes elogios, têm sido corriqueiros – sobretudo após a confirmação de Scarpa – determinados exageros de muitos jornalistas da mídia paulista/nacional. Vários posicionam o Palmeiras numa dimensão completamente própria, distante da do Cruzeiro. Não é por aí. Se existente uma diferença aos paulistas favorável nesta comparação – e eu nem sei se é o caso –, ela está longe de ser grande assim. Não sou adepto de certo discurso típico/populista que alardeia o bairrismo do “eixo”. Mas que em outros termos e em inúmeras ocasiões, existe algo como uma visão limitada, um desconhecimento, uma espécie de esquecimento, de subestimação daquilo que vem de fora de Rio e São Paulo... Em suma: um tipo de estreiteza e, por que não, de bairrismo – que, é bom lembrar, em outras acepções, com contornos diferentes, também existe em Minas, no Sul...

Dentro dos exercícios com quê de futurologia, de medição de forças neste começo de temporada, noves fora as comparações estritas de cada peça que compõe os elencos mais qualificados do país, é preciso salientar que, entre eles, o Cruzeiro é o que carrega maior carga de continuidade, de sequência de um trabalho. O que, diga-se, para muitos dos arautos que não apreenderam pra valer, no grau correto, a força de seu plantel na esfera individual, vira e mexe pesa mais do que a soma pura e simples dos talentos – mas deste ponto, parece, eles também andam esquecendo...

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