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Uma semana inesquecível

O roteirista tem de ser muito engenhoso para brigar com o esporte...

08/05/2019 às 02:53


Entre o recital de Messi no Camp Nou e a recuperação épica dos Reds na volta em Anfield, a semana no esporte não poderia ter sido mais rica de instantes daqueles inacreditáveis, indescritíveis. Tive a sorte de ver todos na íntegra, direto do meu sofá. E sem o acompanhamento daquela culpa de quem, digamos, está se excedendo no lazer. “Vai arrumar algo útil, menino”! “Mas estava trabalhando, pô”?! Não sei se faço jus a isso. Acho até que não mereço. Só me resta desfrutar...

As quatro prorrogações do terceiro cotejo entre Portland e Denver, na sexta; o Liverpool, exalando coração, se mantendo vivo no Inglês em cima do Newcastle arrancando o resultado no fim, fora de casa, numa atmosfera incrível, no sábado; no mesmo dia, o triunfo do Houston sobre a constelação dos Warriors, também no tempo extra; a anarquia esfuziante da retomada do Fluminense em Porto Alegre; o roteiro que parecia escrito por Noel Gallagher, de tão perfeito para a torcida dos Citizens, na segunda, com o gol de Kompany voltando a posicionar Guardiola com vantagem no embate entre os dois melhores treinadores do mundo – o artilheiro mais improvável, mais identificado, de um jeito inimaginável para um zagueiro... Tudo isso ensanduichado entre as batalhas extasiantes que garantiram Klopp em Madri.  

Todos esses eventos aconteceram num grau máximo de tensão. Quase todos eles regados por um esplendor físico, técnico, tático, que a sensação que tinha era de que, pelo menos em algumas acepções – ainda que em poucas... –, a raça humana mostrava sua força para seguir, evoluir. Nem se quiséssemos e elucubrássemos cuidadosamente os últimos dias se materializariam numa propaganda melhor em prol do esporte.    

Uma das características que mais me fascinam em todas as modalidades é a força psicológica desnudada por seus protagonistas. A capacidade para lidar com a pressão. O personagem de Woody Allen, em “Hannah e suas irmãs”, numa reunião de família, fica boa parte do tempo se esquivando no quarto, tentando fugir dos parentes para ver um jogo de basquete. Perguntam para ele, em determinado momento, por que ele gosta tanto daquilo. Aquele papo de sempre: “um monte de marmanjo atrás de uma bola, qual a graça? Eles não estão nem aí para você...”. O ilustre torcedor dos Knicks rebate enfatizando a beleza no fato de como ali, na quadra, nos campos, há uma espécie de verdade física – que inclui o poder mental, a inteligência intuitiva –, de fluência, descarregamento; regozijei-me com essas qualidades várias vezes, em êxtase, durante esses confrontos listados.

Se recordarmos do recente e tão especial quanto duelo que eliminou o City da Liga dos Campeões – marcado pelo maior coito interrompido da controversa história do VAR; se estendermos a conta para um aspecto macro e nos atentarmos que vivemos a era Federer/Nadal/Djokovic no tênis, pegamos Phelps na natação, Bolt (...), devemos nos considerar privilegiados por estar presenciando uma fase de ouro na história do esporte. Em tempos de uma concorrência tão múltipla no mundo do entretenimento, com filmes trazendo a histeria de volta aos cinemas, séries quebrando a internet aos domingos em patamares malucos, NBA, Premier League e Champions seguem firmes com produtos que vendem frequentemente emoções e excelência com competência, imponência para lá de elevadas. O apelo, o acabamento, a intensidade da coisa... Marvel, HBO, Netflix: o roteirista tem de ser muito engenhoso para brigar com o esporte...     


Para mencionar uma faceta “negativa”: com o acesso à informação que existe hoje, com a possibilidade de testemunharmos tudo das nossas casas, às vezes há tanto jogo imperdível sendo transmitido que, confesso, em meio a obsessões de tudo acompanhar, sou invadido por sentimentos conflitantes e fico pensando se, em nome da diminuição do confinamento, de ao menos alguns deveria abdicar; chega a dar aquela agonia de horas seguidas em frente à televisão, emendando Libertadores, basquete, futebol europeu (...), não necessariamente nesta ordem. Felizmente, esta semana em particular nos deu tantos presentes, as partidas históricas foram tão boas, e tão numerosas, que a catarse veio indoor: a adrenalina de espectador tão acentuada que o prazer parecia análogo ao do praticante, de quem libera endorfina ao pôr do sol ameno e nem está atinando que a TV existe...

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