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Injustiça institucionalizada

Não há a menor lógica em desprezar o que em teoria é o mais importante – ou em continuar considerando como mais importante o que é desprezado

10/08/2018 às 03:30
Injustiça institucionalizada

Há uma sutileza importante, latente, e ainda assim, pouco alardeada, que, ao menos desde o ano passado, tem cercado a ruindade do nosso calendário: a Série A passou a correr riscos ainda mais evidentes de simplesmente não refletir, sequer remotamente, a verdade técnica, a justiça. A agenda de boa parte dos clubes mais fortes tornou-se tão cheia, errante, confusa, atribulada; a quantidade de partidas decisivas em que estes esquadrões preservam os titulares no certame de pontos corridos, tão grande, que a disputa nesta competição chegou ao nível de, em certo sentido, perder a razão de ser. É preciso mudar para ontem.

A linha entre o péssimo e o impraticável muitas vezes pode ser tênue. Cruzamos este limite. O produto vem perdendo em termos de qualidade, também pelos problemas de calendário, há anos. Jogos com menos intensidade, foco, realizados sem que qualquer preparo minimamente sofisticado tenha sido esboçado ao longo da semana; carência de tempo para o esmero tático e físico: tudo isso a gente já sabe e deveria ser combatido. Mas quando se atinge o patamar de tácita e talvez inconscientemente – ou não... –, abrir-se mão, descartar-se o campeonato nacional mais nobre, ele há de se reciclar – fica estranho demais continuar concedendo-o mesmo status a partir do momento no qual ele é tratado assim, com determinado descaso. Impressionante como o hábito, uma espécie de resignação contribui para que nos acostumemos – e não detectemos – o ridículo: milhões envolvidos, toda uma cadeia econômica, cultural, social (...), eternas discussões/análises feitas girando em torno de algo que, no fundo, não se conhece mais como seria se de fato os melhores de cada participante tentassem; não temos essa resposta; não é a “realidade” de cada um que está ali justamente representada, avaliada. Quando se acha normal falarmos abertamente, de boca tão cheia – com razão –, que São Paulo e Inter podem se beneficiar tão decisiva e claramente – mesmo sendo hipoteticamente inferiores – pelo fato de Palmeiras, Grêmio, Flamengo e Cruzeiro estarem preocupados com outras coisas, é por termos perdido a mão – ou então passemos a considerar “oficialmente” o campeonato como os europeus costumam julgar suas copas: como competições menores. Não há a menor lógica em desprezar o que em teoria é o mais importante – ou em continuar considerando como mais relevante o que é relegado. Sei que no tocante a seguir estou completamente devaneando em diferentes acepções – num cenário em que o tosco reina, a representação vale bem mais do que a essência –, mas vá lá: até o “inferior beneficiado”, se quisesse ser o “verdadeiro vencedor”, haveria de querer comprovar ser melhor numa disputa em que genuinamente os maiorais estivessem envolvidos. 

Um cotejo como o do último fim de semana, entre Flamengo e Grêmio, teria de ser um daqueles picos que os campeonatos de pontos corridos nos reservam paulatinamente, de maneira mais distribuída; numa disputa em que não há finais, em que os melhores cortes são servidos como num “menu degustação” – e não em um só prato –, as partidas mais emblemáticas, as receitas mais saborosas são aquelas que reúnem os desafiantes, os ingredientes que oferecem o que existe de mais privilegiado no que tange à qualidade; se corriqueira e intencionalmente, os próprios clubes, os próprios chefs, reservam para estas ocasiões muitas de suas matérias-primas secundárias, paremos: é como se a disputa – ou o baquete minimamente digno deste nome – sequer tivesse acontecido... No todo, se este expediente se repete tanto, é como se a verdade se dissolvesse e sequer fosse testada, colocada à prova...

Desde o ano passado há quase um consenso de que o Grêmio é o melhor time do Brasil – ou no mínimo um candidato seríssimo ao posto. Como podemos decretar o verdadeiro campeão Nacional se uma força desta grandeza – por uma decisão quase sempre ao menos em larga medida justificável, intencional, mas por “motivos de força maior” – sequer tenta “pra valer” abocanhar este título? Se a França tivesse vencido a Copa e, por querer – mas não “gratuitamente” –, numa quantidade acima do aceitável e/ou num embate decisivo, o Brasil jogasse sem Neymar, Coutinho e Jesus, a Argentina preservasse Messi (...), a Bélgica escanteasse Hazard, Lukaku e De Bruyne, não acharíamos a conquista do Mundial “estranha”?

Foto: CBF/Divulgação

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