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A ótima matéria do Fantástico, outras aulas de jornalismo e a pobre defesa do Cruzeiro

Da desastrosa nota publicada antes de a própria denúncia sair, à péssima coletiva de ontem, a defesa do Cruzeiro tem sido um desastre...

28/05/2019 às 04:59

Vinnicius Silva/Cruzeiro

No segundo episódio do ótimo Podcast “Muito mais do que futebol”, disponibilizado no dia 16 de maio, Mauro Cezar Pereira, Lúcio de Castro e Leandro Iamin nos brindaram com debate riquíssimo sobre uma espécie de inversão de valores que anda comum na mídia esportiva brasileira: a perda de espaço para reportagens investigativas de fôlego, que demandam apuração longa, cuidadosa, embasamento. Já escrevi fartamente a respeito do tema. Fiquei com receio de soar repetitivo. Mas a qualidade das reflexões dos três mencionados, e o trabalho excepcional de Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo revelando inúmeras falcatruas no Cruzeiro me obrigaram a voltar ao tópico.

Quando ministro palestra em faculdades fico um pouco perplexo com duas coisas, predominantemente: em primeiro lugar, como fatia estrondosa dos estudantes de comunicação fazem o curso somente para entrar na editoria de futebol – vejam bem: nem digo de “esportes”. Ter essa opção, em si, não é um problema. A proporção do fenômeno, em termos sociológicos, até, para a compreensão de tendências, de como o labor jornalístico é enxergado num aspecto macro, me parece digna de atenção. Num outro momento, uma constatação talvez mais intangível: espanta como espalhou-se e enraizou-se uma aura de glamourização superficial da profissão. Não há, nestes numerosos casos que encontro entre os estudantes, sequer flerte, qualquer ponto de contato com a figura clássica do repórter. Coragem, intelecto, dizer o que as assessorias não querem e, acima de tudo, ter trabalho, ler muito, penar no duro ofício de pesquisar sem a certeza se será adquirida a musculatura necessária para publicar? De jeito nenhum... O importante é aparecer, é número de seguidores; jornalista enquanto celebridade...

Para essas pessoas, algumas dicas – além das já listadas na coluna e deixando muita coisa boa de fora: o texto de Michel Laub no Valor Econômico sobre o livro “Repórter” – e, claro, a obra propriamente dita –, de Seymour M. Hersh (Todavia, 384 págs, tradução de Antônio Xerxenesky); as reflexões de José Trajano sobre a overdose na mídia esportiva de programas “opinativos” e “humorísticos” – felizmente, o “Pontapé Inicial”, com ele e Dudu Monsanto, voltou; a agência “Sportlight” – do já citado Lúcio de Castro –, que no nome começa ganhando de um a zero, na prática constrói a goleada, e recentemente marcou do meio-campo em consistente apuração sobre Mario Celso Petraglia; a longa e incrivelmente detalhada matéria da “New Yorker” desmascarando o escritor Dan Mallory; por aí vai...

Tomara que a excelente matéria do “Fantástico” no domingo inspire, inclusive em Minas, uma reflexão sobre o que é jornalismo. E um alerta: o principal antídoto para o que predomina por aí não é só “opinião corajosa”; na ânsia por não parecer integrante da manada vira e mexe detecta-se, digamos, um tipo de “rebeldia sem substância”. Como Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo fizeram, é preciso munir-se de farto material e qualidade intelectual para sustentar determinadas coisas. O Cruzeiro, diga-se de passagem, não tem feito isso na sua defesa. Que os bastidores do futebol em geral são podres, todo mundo sabe. Que muitas das falcatruas que têm acontecido na Raposa são epidêmicas, também. Mas a própria instituição usar “argumentos” como a “velocidade do futebol” para não conferir se determinado agente é regularizado, no fundo, não é defesa digna do nome; não cabe vociferar que “acontece em todo lugar”: se sua correção está sendo questionada com solidez, se você tem algo para desmentir as acusações, entre no mérito, mostre conteúdo que embase inocência... Por fim: atacar o mensageiro, e não a mensagem, como diria Schopenhauer, é estratégia baixa para vencer a discussão sem ter razão. Ótima pergunta, Vinícius Nicoletti! Quem te conhece sabe que você não tem nada para esconder...   

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