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Galvão, Neymar, imitação e injustiça

A mania de apenas apropriar opiniões e as injustiças públicas causadas por ela...

03/05/2019 às 04:21
Galvão, Neymar, imitação e injustiça

Na psicologia, filosofia, sociologia; nas teorias da comunicação, na literatura, fala-se da tendência humana de apenas aderir, imitar comportamentos. Esse tipo de análise acadêmica e artística, nos campos mencionados, não costuma se aplicar apenas aos exemplos, de certa maneira, mais caricatos, óbvios; não engloba somente os casos nos quais o indivíduo, de forma mais cristalina, copia, apropria as ações, o jeito de alguém. Não... Aqui estamos incluindo também a utilização de referências, a influenciabilidade mais sutis, movidas talvez por um tipo de osmose, comodismo, automatização.  O interacionismo simbólico é uma corrente interessante para quem quer estudar esta área, para ficar em um exemplo. Ao contrário do que se coloca costumeiramente, a influência da mídia não se restringe a uma relação, digamos, mais direta, entre emissor e receptor. Invariavelmente o sujeito acaba afetado pelas mensagens de jornalistas, celebridades (...), num segundo momento, indiretamente, por meio do contato social, sentindo até inconscientemente se determinada fala e/ou conduta “pegou” ou não, está sendo avaliada como algo positivo ou virou motivo de chacota, é espalhada com conotações pejorativas.

Conforme comentei na coluna passada, a relação do povo com o futebol pode ser fonte riquíssima para a compreensão da nossa espécie, de diferentes culturas. E neste ponto especificamente, o da edificação de sensos comuns, visões que se tornam bastante populares, o nosso esporte, pela sua penetração gigantesca e que transcende a limitação a nichos pontuais, deveria servir como pano de fundo para intelectuais, pensadores, estudiosos de humanas em geral num grau muito maior do que o materializado na prática. A confusão entre uma coisa “inútil”, um “negócio”; uma modalidade que gera, se cerca de muita reação estúpida, e a invalidação a priori, preconceituosa de que o vínculo da sociedade com esta paixão nada pode nos fornecer para reflexões mais sérias e profundas, atrapalha.

Sábado o Sportv veiculou entrevista bem legal com Galvão Bueno. Num momento do papo, ele disse que chegou a ser invadido pela vontade de parar no ápice do “cala a boca” que escutava aos quatro cantos. Me cansei de ouvir amigos que, sem o ínfimo embasamento, sem acompanhar amostragem mínima das transmissões do nosso principal narrador – e de razoável gama de concorrentes, o que seria fundamental para uma base comparativa e uma familiarização com a atividade em pauta –, numa encarnação perfeita do “espírito de rebanho”, repetiam como maritacas: “nossa, o Galvão é muito chato”. Felizmente, a voz mais popular no esporte tupiniquim, não sucumbiu nestas adversidades. Qualquer comunicador que segura o microfone por um tempo que nem precisa ser grande, saca os inúmeros méritos de Galvão. O “cala a boca” direcionado ao Global foi dessas histerias coletivas tão injustas, cruéis, quanto despidas de substância. Uma fala que, nas interações sociais – e virtuais – simplesmente se propagou como um “desabafo”, uma “catarse”, algo que era “legal” proferir por aí.

Neymar, sobretudo no último ano, também tem sido vítima dessa nossa tendência de simplesmente aderir a opiniões, padrões com os quais temos contato. Na imprensa, na população, anda comum um julgamento automática e integralmente ruim para tudo que ele faz. Óbvio que o jogador não deve dar soco em torcedor. Tenho preguiça de boa parte das entrevistas, dos comerciais, de toda a persona pública do nosso mais famoso jogador. Sua mania de simular/cair – embora esta, em níveis um pouco maiores ou menores, esteja entranhada na cultura do futebol em variados lugares do mundo e sobrepuje, em muito, a figura do capitão de Tite – me parece detestável. Mas tudo anda “preto no branco”, simplório demais nas críticas a ele. Os tons de cinza necessários pelo que a realidade das ações do craque, dentro e fora das quatro linhas, nos aponta, vêm se ausentando num patamar muito exagerado nas apreciações gerais.

Fotos: Divulgação/TV Globo e Divulgação/PSG

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    'Eu estou levando minha revolta para um lado de injustiça, eu preciso de uma resposta. Eu guardei tudo no quarto do bebê. Essa dor parece que não vai passar', completa.

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